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Mostrando postagens de Agosto, 2007

ITINERÁRIO DA EMOÇÃO

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Quem faz uma mulher
faz uma tarde
e seus vestígios poentes.
Faz a noite
e, num só momento,
faz igual
o que, por desigual,
é diferente.

O primeiro homem
é sempre a primeira estrela
a aparecer no céu
mas não é a única.
Novas noites acordam o delírio
de um dia à frente
se não se encontra no crepúsculo
o itinerário da emoção
que é etérea e não passa nunca

(do livro “Amálgama” (1991))

NÓS

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um
e
outro

Nunca
dois

Juntos
por
um instante
eternamente

Definitivamente
distantes
depois

(Do livro "Amálgama (1991))

FRAGILIDADE*

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Fragilidade *

A dor – cárcere privado.
Indivisível.
Efeito?
Defeito detectado
no peito (quem sabe) desarmado,
na carne, matéria exposta
susceptível ao tempo,
no coração que pára
-relógio sem conserto
nem motor de reserva.

Inventos os tempos levarão.
Fadarão ao passado
novidades imediatas.
O que será do homem
- vaso de porcelana –
se os jardins desmoronam
sob concretos?
Profetas, Deuses – mistério celeste –
crença absoluta no abstrato poder:
autores de espetáculos
onde, involuntários atores,
brindamos ao happy end.
?

Ergamos as taças,
enfeitemos o vaso.
Viver é representar
a transparência dos cristais
e a fragilidade de flores colhidas.

*Poema publicado na Revista Espiral No.3 – 1997 p.80

ETERNO

é somente o amor
Que não se realiza.

(Do livro “Amálgama” (1991))

MOLDURA

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(Para Pedro, meu pai)

Calma
a lua se anuncia
se insinua
como se nua
fingisse mais recato;

Rápido se inicia
a cortante melodia
dos pássaros.

Uma estrela sorri
emoldurada de adeus...
é a tua presença
na ausência dos teus traços,
é a tua falta,
ocupando meus espaços

(Do livro “Desesperadamente Nua” (1987))

CUMPLICIDADE

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Entre uma e outra mão
desata-se meu corpo
em oferenda.
Cada dia empresto-me
um pouco mais
ao meu riso
à minha dor
ao rosto que não é meu
e continua a denunciar
minhas reações.

Entre teto e paredes
meu quarto espera-me entrar
em cena
e estrear meu drama.
Meu cenário são
essas quatro paredes
que me fitam, me insultam
mas não me escutam;
nada resolvem ou dizem,
só me acusam, me assustam
e me expulsam
como se eu fosse apenas
mais uma boneca.

Tão pouco resta da carne
à sobra do que me consome;
nem corpo nem vício,
faço-me na cumplicidade dos olhos,
dos dias que me aterram
e redescobrem.

Morro secretamente
E sem explicação;
Encontro-me todos os dias
E, diante de mim,
Descubro que não me pertenço.

(Do livro “Desesperadamente Nua” (1987))

O SANGUE DA LIBERDADE

Quero sobretudo essa malícia
de trazer no corpo a marca das fêmeas,
seduzir reduzindo meus excessos
em assimetrias expressos
à flor da pele.

Quando for preciso,
enlouquecerei;
quebrarei as algemas
cedendo aos poucos
à tentação dos loucos
que injetam na veia
o sangue da liberdade que crêem.

Quero deter os alarmes
a tempo de aprender minha história
sem carícias a cicatrizar.
Quero além de tudo esse veneno
que denuncia minha maldade
castidade pra toda sedução,
pra solidão que eu decreto
dia a dia
adiando desejos.


(Do livro “Desesperadamente Nua” (1987))

A QUEDA DO MITO

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Nada de novo sob o sol. Se encontrasse tia Felícia, certamente ouviria essa frase hoje. Nunca vi alguém que gostasse tanto de repetir frases feitas. Para toda situação ela tinha uma para se sair ou fazer sua conclusão. Eu ficava impressionada com a sua capacidade de contextualizá-las e de sintetizar os acontecimentos em poucas palavras. Lembro-me de que ela odiava a palavra tia, dizia que era título pra velha rabugenta, que sublimava a solidão com os sobrinhos. E esse não era o seu caso, dizia jogando os cabelos.

Conversando, um dia, com o meu professor de português, sobre o seu repertório infinito de frases feitas e provérbios, fiquei sabendo que essa preferência é muito comum em pessoas incultas. Eu pensava que fosse o contrário.

Senti cair um pouco a minha admiração por aquela figura singular. Tia Felícia, de fato, pouca cultura e era uma frustrada por não ter se casado nem tido filhos. Os seus casinhos não a satisfaziam como ela dizia. Se é que ainda os tinha.

No final de semana seg…

VIRANDO O JOGO

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Depois que ouviu Mestre Raimundo, Marieta baixou a cabeça e levantou da cadeira. Saiu apressada, desviando a cortina de xitão azul. Jogou umas cédulas na mesa da atendente adunca e só respirou quando perdeu o sobrado de vista. Tão católica e procurando aquelas coisas. Esconderia do marido, mas, de Deus... O que diria Padre Tobias no confessionário?

Estava dividida entre acreditar ou não nas revelações. Caminhou tropeçando em sua culpa, encompridando o caminho, para ver se chegava em casa mais aliviada. Não poderia dar crédito à leitura das cartas. Nem dos búzios. Eram revelações tolas, inventadas por um velho charlatão. Não sabia por que ficara até o fim. Além de pagar para ouvir aquelas asneiras, ainda tinha de conviver com a culpa de ferir a Deus. Deus... onde Ele estava que não via o marido escorregar-lhe pelos dedos?

Tanta missa, tanta reza e tudo inútil. Nem precisava do jogo de búzios para saber. Foi só por curiosidade e necessidade de uma confirmação. Imagine. Ter a confirmação p…

A DOIDA MAURA

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De longe se avistava a casinha em cima do morro. Suas formas evanescentes se desenhavam entre as nuvens e, em dias enevoados, parecia suspensa no ar, bem perto do céu. Se o tempo fechava, desaparecia do horizonte, como por encanto. No inverno, o morro ficava verdinho, realçando o contorno das paredes. Dava para pensar que era baixinha e pequena, mas eu não discernia exatamente o seu tamanho porque entendia que na distância tudo ficava menor.
Aquela casinha era um enigma para os meus olhos de menina. Fitava-a todos os dias e estudava um jeito de chegar lá. Quando falava em subir o morro, minha mãe cortava o assunto com rigidez. Dizia que era perigoso. Lá, morava uma doida asmática chamada Maura. Vivia sozinha e não gostava de crianças. Imaginei como deveria ser a vida de uma doida que morava numa casinha misteriosa. Deveria ser fascinante a vida de uma doida, ainda mais com a sorte de morar ali. Pena que não gostasse de crianças...
Procurei esquecê-la, mas quando vislumbrava o horizonte,…

VESTIDO DE NOIVA

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Estou quase pronta. Não quero chegar atrasada à igreja, pois sei que Mário detesta esperar. Eu poderia estar mais feliz, se mamãe fosse menos intransigente. Tradição... fico questionando o sentido dessa palavra na minha vida. Detalhes... são importantes. São eles que fazem a diferença. Se não, tudo seria igualmente medíocre. Mas há detalhes e detalhes.
Termino de vestir a meia e calço os sapatos. Agora é a vez do vestido. Minha mãe ergue a saia para não amassar meu cabelo. Minha irmã segura a cauda com um certo sarcasmo nos olhos. Sente-se vingada. Quando foi a sua vez de vesti-lo, tive uma crise de riso. Não imaginava nunca que o meu dia fosse chegar.
Agora é o véu e a grinalda. Fico aborrecida com os prendedores espetando minha cabeça. Deveria estar tão feliz! O que parecia impossível se realizou. Serei uma senhora. Mário será eternamente meu daqui a alguns minutos. E com a bênção de Deus. Mas não estou, por causa da maldita tradição que mamãe insiste em seguir. E logo comigo. Eu que …

O ÁLBUM E AS LEMBRANÇAS

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Ela ficou com o álbum e as lembranças. Ele não fez questão; preferiu o prazer da liberdade que nunca perdeu de fato. A suntuosidade da cerimônia não foi garantia. O sim diante do padre, o juramento de fidelidade, a troca de alianças... encenação de um filme de curta duração e sem final feliz. Restaram as fotografias, a filha que já carregava no ventre quando subiu ao altar e um ano de péssima convivência.
Debruçada sobre o álbum, ela chorava. Quando deixou de ser amada? Não percebeu o momento nem teve a perspicácia de ignorar a indiferença dele. Agiu de forma infantil, arrumando a mala e batendo a porta sem uma lágrima nos olhos. Estava seca, nem lembrou que ainda o amava.
Quando, decidida, apertou o botão do elevador e tomou um táxi com a filha de um mês no colo, pensou ter tomado a decisão mais madura da sua vida. Era uma mulher, enfim; havia expurgado a menina mimada que ele tanto criticava. Retornou ao quarto de solteira, certa de que seria por pouco tempo. Ele iria buscá-la. Então …

COM OS PÉS FORA DO CHÃO

Não sei por quanto tempo fiquei trancada naquela sala. A consciência era um fio de náilon oscilante. Eu a atingia por um ângulo indefinido. Ia e vinha, de modo que o tempo se repartia em pedaços de cenas que eu entrevia na escuridão. Já sabia que a consciência tinha me sobrado. Do resto, nada podia dizer; não sentia o meu sangue ferver nem gelar. Eu era só um corpo sujeito a reparos inevitáveis, centro de urgentes atenções.
Eu tinha um mundo e aquelas pessoas, outro. Elas não conheciam o meu, mas eu tinha noção do delas. A ligação estava naquele ser derramado ali, sem pudor e creio que, na concepção delas, sem um mundo imediato.
Eu não sabia até que ponto a minha vida dependia delas. Ao mesmo tempo em que eu sentia medo de que desistissem de salvar-me e mergulhava num desespero mudo, criava subsídios de luta. Eu tinha um filho de apenas três anos; àquela hora ele deveria estar sentindo a minha falta. Eu tinha a obrigação de voltar.
Tive ímpetos de atribuir à Rosa a responsabilidade por…

ORQUÍDEAS

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Fico feliz quando Arnaldo me traz orquídeas. Ele não sabe que são elas que me mantêm aqui. São tão raras; talvez, como eu tenha sido na sua vida de culto à melancolia. Eu não poderia mesmo continuar em casa. Não com o seu olhar me espreitando com uma delicadeza medrosa de quem subjuga a calma.
Eu fui agitada como Arnaldo. Tirava impaciente a poeira dos móveis, passava cada nervura da roupa, pouco faltava para lamber o chão. Não tínhamos empregados; eu fazia tudo sozinha e ainda trabalhava numa loja de brinquedos. Ele queria crescer, alcançar as estrelas e eu pegava carona nos seus delírios. A vida passava sem que eu me desse conta de sentir a delícia do seu toque. Não contemplava mais nem o meu umbigo na hora do banho. O tempo sempre queria me atropelar e, para vencê-lo, fui me transformando numa máquina programada. Não cansava, não podia errar.
Ainda no ano da nossa união, um estrangeiro passou a freqüentar a nossa casa; tinha negócios com Arnaldo. A sua expressão er…

INSÓLITA FAMILIARIDADE

É certo que demorei a me vestir, mas o relógio parecia mais apressado do que de costume. Não teriam mais as horas sessenta minutos? Cheguei atrasada ao vernissage já com pressa de voltar para casa. Chovia forte e eu estava cansada. Na verdade, nem sei por que fiz tanta questão... nem por que era tão importante... eu sequer conhecia os expositores!
Escalei os degraus e me instalei no primeiro salão, perto de uma parede de vidro que separava o ambiente das árvores que davam para a calçada. As minhas retinas vasculharam cada espaço e tatearam o movimento de pessoas desconhecidas, que se avolumavam ao meu redor, causando-me vertigem; depois, as telas alinhadas e suspensas por fios invisíveis.
O carro parecia estacionado há muito tempo. Aquele homem não alcançava os meus olhos nem eu os dele, mas o seu perfil transmitia-me uma insólita familiaridade. A cena parecia repetida, congelada numa imagem que eu jamais vi. Tudo era outra vez, sem ter sido nunca a primeira.
Quedei a observá-lo. Por que…

A CASA

O telegrama não dizia muito. Seria possível voltar a perder algo já perdido? Havia me acostumado a não colocar os meus mortos na bagagem. Abandonava-os a um compartimento qualquer do corpo, para que não lesassem o que de mim restara entre os escombros.
O taxi corria veloz pelo asfalto. Os pneus derrapavam com violência. Faltava pouco. Antes, o percalço de três dias de estrada escorregadia e a chuva impossibilitando a rapidez do percurso. Da estação até a casa não era tão longe. Mais longe estava o meu coração letárgico, congelado na necessidade e no medo de chegar. Quanto mais me aproximava, mais me sentia muda, seca, incapaz de qualquer raciocínio antes de saber por que voltava. Só as notícias determinariam o meu estado.
O muro desbotado denunciava o envelhecimento da minha ausência. Não tinha me dado conta. O tempo sempre obedeceu à cronologia da rotina sufocada e o meu passado foi, circunstancialmente, se transformando num papel amassado em branco. Agora, ressurgia como um vulcão ime…

REDEMOINHO

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Já me incomodou mais esse ininterrupto barulho do mar, remexendo minha memória. Esse silêncio intempestivo da clausura, sim, continua me impedindo de descansar em paz, interrompendo qualquer possibilidade de desaprisionar minha alma.
Tudo em volta é feito desse silêncio perturbador. Desde que os turistas e os pescadores tiveram certeza da fúria do redemoinho, a praia foi se tornando cada vez mais deserta, facilitando a imperecível vida dos fantasmas. Só eles ficaram e alguns nativos que não puderam abandonar suas taperas.
Passo a maior parte do tempo acompanhando o movimento das águas. As gaivotas aparecem em bando para beijá-las, mas não se demoram. Logo alçam vôo, como se não se importassem com a solidão que deixam para trás. Perco-as de vista e retorno às ondas enfurecidas a quebrarem na areia. Reagem contra o abandono. Depois se cansam da inutilidade da revolta e se acalmam; passam a correr brandas, como quem é submisso ao cumprir uma obrigação.
Quando havia turistas, pelo menos, eu…

Da rua

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Ele me batia e me queria violentamente. E me dizia coisas horríveis de que eu gostava. Todo dia de quinta, às 8 ele passava e era certo eu estar esperando por seus dedos melífluos, sua boca sem céu nas palavras... Eu me doía toda se ele demorasse. Só de pensar ir com outro no dia dele, só de pensar ficava mal. Mas ele vinha nem que fosse atrasado para puxar meus cabelos e me mandar ficar de quatro como uma égua. Ele vinha e me queria violentamente, me dizendo coisas horríveis de que eu gostava. Nunca nada me prometeu nem deu. Nunca. Mas sabia que eu era da rua e gostava de fazer comigo o que seus instintos mandavam. Fui cadela, vaca, égua, cabrita, só não mulher para não me parecer com a dele... Fui feliz até o dia em que ele nunca mais apareceu. Só vi no jornal o convite para a missa.

Parto

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Um cheiro branco de margaridas voava até sua janela branca de venezianas abertas. Acordar sempre foi seu desespero. Invadida pelo vento frio, alcançava com esforço o chuveiro e recebia paciente o jato da água. Sempre já passava da hora e era quando ela odiava ser só. Tivesse um homem e sairia plena, penetrada pelo dia antes mesmo que ele amanhecesse. Há quando tempo só o prazer frio e solitário da ducha. Há quanto tempo só o cheiro branco das margaridas e o dia nascendo nela como num parto a fórceps...

Quem mandou?

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Devia ser domingo e ela estava engordando. Mas fez a pergunta fatal e ele saiu sem dar resposta. Tão só, sem filhos, sem amor, ela ficou à espera, tão sem que o doce arredondava todas as vontades. Ele ia voltar, ela pensou no começo e o tempo foi passando. Esperança parou de voar por perto e ela foi se acostumando a não esperar, a viver porque não poderia ser de outro jeito. Chorava mais quando ouvia “quanto sinto em dizer-te...” o mais importante não era o verdadeiro amor, era viver cada dia e mastigar o silêncio da casa, olhar a chave na porta no final do dia sem enganchar na outra. Quem mandou pedir que ele decidisse? Quem? Ela se arrependeu, ligou pra ele, pior não ficaria.
Ele quase passando com a outra na sua calçada. Ela quis fingir que não via porque se visse tinha que agir. Viu, agiu, se arrependeu. Não devia ter ouvido conversa de vizinho. Nenhum sabe a hora do travesseiro como é, a falta daquele pé roçando. Ligou, disse pra ele buscar o resto da roupa, falou do gás vazando,…

Viagem

Mais um gole de tequila e ela desabou. Com os olhos de quem esperava, ele a suspendeu nos braços, vagorasamente caminhou para o quarto e a depositou na cama de lençóis alvíssimos, certamente preparada para a festa. Há quanto tempo esperava vê-la ali sob seu domínio; ela tão poderosa em suas defesas, ali a seu dispor, as pernas quase nuas espalhadas sobre o cetim branco, a boca entreaberta quase pedindo um beijo. Ele escorregou a mão por suas coxas, suspendendo o vestido devagar. E se ela acordasse... consentiria que lhe retirassem as meias? Para deixar-te mais à vontade, estava preparado pra dizer. Não eram ruínas, destroços dela, era ela dormindo como as virgens de Azevedo. Recuou, doeu-lhe o peito. As mãos, sempre elas, advogando seu desejo e reprimindo-o. Parou antes de tocar seu sexo. Procurou o peito apertado, o coração o traía. Ela não se mexia. Viu que sonhava. Ela quer mais tequila, fez que ia buscar. Não voltou. Nem ela.

Pacote pesado

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Terminava não em silêncio. Ela recostada na poltrona com os olhos úmidos de culpa sentenciava: acabou. Ele vitimado sempre num silêncio ensurdecedor não queria entender. As crianças. As dívidas. As dádivas. Um pacote pesado sobre ela irredutível. Seca, áspera, esponjava por dentro de nojo. Tudo menos pedir amor. Isso ele não fizesse. Ele fez. Implorou lucidez, amor.

Noites intermináveis fingindo dormir. Pesadelo nos olhos cerrados evitando conversa. Nem há mais o que dizer. Repetir tudo todo dia cansa, confunde. Ela não queria correr o risco de reconsiderar, de tê-lo sobre o seu corpo, de... Ela não conseguiria mais simular tolerância. Impacientava-se dilacerada pelos olhos molhados de acusação. Fria calculista egoísta. Não importavam os adjetivos. As farpas batiam e voltavam em seu corpo petrificado de recusa.

Noites intermináveis. Dias intransponíveis. Lugar comum. Ele acordava feliz como se não fosse com ele. Fazia planos. Difícil prolongar tanta coragem. Teve pressa de morrer. O ou…

Tarde demais

Mordi o lábio contrafeita. Odiava-o naquele dia até sempre. Peguei a mala e sai atropelando a mágoa em uma tentativa de superioridade que não me era possível. Meu corpo doía como se uma tempestade o vergasse para direções impossíveis. Ele não haveria de saber da lágrima que embargava minha garganta. Não haveria.

Ainda lembro: “supostamente” ele disse “não tenho certeza” quando o interpelei sobre não saber ser feliz. Ele nunca tinha certeza das coisas e eu sempre voltava a Joyce recostada na poltrona. Ulisses, difícil e fragmentado como eu, recortava o silêncio e me fazia padecer.

Até que sai com o instante atravessado no peito, o nó, a lágrima paralisada. Eu, a mala e Ulisses escada abaixo com o barulho da porta batendo para sempre e a culpa de ter esperado o ódio arrombar as janelas e secar nossos lençóis. Ele não haveria de saber que pensei em ficar. Não haveria de morder o lábio contrafeito nem de me pedir para voltar. Era tarde demais para algum sofrimento.

Espera

Quando ele a encontra rapidamente na hora do intervalo de trabalho não sabe do dia inteiro de espera que ela carrega nos olhos. Ele a olha como se a visse e se vai. Ela o vê antes de olhá-lo e, resignada, ansiosa, se mantém ávida pelo que ele nem sonha que pode lhe dar.

Crime sem castigo

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Não era de ternura que ela precisava. Era pobre, pobre, muito pobre, mas tinha a dignidade do coque sobre a cabeça, preso por um grampo que ninguém desconfiaria enferrujado. E tinha dois olhos azuis encravados na pele leitosa, como duas dissonantes águas-marinhas.

Num domingo de maio conheceu Raimundo no culto. Tão limpo de alma que ela nem pensou num vestido melhor. Deu-se. Suas pobrezas entrelaçaram-se e... nem mais o coque se viu, o azul dos olhos se perdeu...

Por que se impressionara tanto com Raskolnikov? Por que o apanhara quando a patroa jogou-o no lixo? É meu, abraçou-o e nem o odiou quando assassino. Quis ser Sônia Marmielàdov. Amor de salvação. Logo depois veio Raimundo com sua alma limpa e os bolsos vazios. Ele era tão terno que ela nem o viu tão pobre. Castigo sem crime a pobreza. Redimiu-se por fim. Não quis mais ser personagem de Dostoiévski e partiu.

Monólogo a dois

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Meu desejo também era ficar assim para sempre amarfanhada nesses lençóis, enterrada nos teus braços, apertando-me ao teu corpo até atravessá-lo. Mas há um litígio lá fora e um mundo me acusando de louca porque nunca me permiti sê-la e perdi o direito.

Não é o mundo que te acusa, tu não consegues derrubar os muros que tu mesma construíste à tua volta. Fica, eu te peço. Faz por ti a doação desse direito; o preço não é mais alto do que o que pa…

Foi

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Ele à janela todos os dias àquela hora, parado como extático contemplativo... Ela passava e interrogava aquele silêncio que não lhe pertencia. Ela passava Ele ficava numa afasia que nem Baudelaire conheceu. Imenso Impoderável Inatingível. E ela todo dia à mesma hora fotografa aquele delírio com suas lentes astigmáticas, doida pra ser vista revista. A janela ela sentia desconfiava mas ele...

Num átimo o revertério. Lençóis amassados, roupas desnecessárias. Até miava atravessada por uma corrente elétrica que não desligava. Curto-circuito conserto Curto-circuito desconserto. Irremediável o amor requentado. Um dia acordou desacordou Acordou: vontade de quebrar o tempo e deter o despertador. Um dia quem suspeitaria os chinelos gastos, o toque demorado o puído da meia teriam o mesmo fim: tédio tédio tédio. Horror. Holocausto. A respiração ofegante nauseava,

E os chinelos gastos e a meia puída, o amor demorado couberam na mesma mala. Sem destino escolheu o silêncio: colérico, empertigado, inte…

Todos os sábados

Ia sozinha levar os quiabos ao padre. Saia no joelho, lenço no cabelo para parecer educada no recato. Neta de Maria, afinal. Das frestas da janelinha da porta pronunciava um “ô de casa” tímido, quase tão pálido quanto os gerânios da janela sob o sol de agosto. Alguém vinha lá de dentro enxugando as mãos, com o agradecimento ensaiado.
No confessionário, os joelhos trêmulos, não podia dizer o que a invadia nas manhãs de sábado, quando tinha que atravessar a praça, de saia no joelho e lenço na cabeça com o saco de quiabo na mão. A tela, como as frestas, impedia seu rosto de ser. Era só a moça que ia levar os quiabos à casa do padre todos os sábados e nem ele sabia. Sem pecados confessáveis, não comungava. Não sabiam dela, mas ela sempre soube de si.

O mar...

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Deu-se na Baixa Danta o acidente, já quase manhã. Carro virado e sangue. Morte não. Ainda. Correria em casa, Creuza arrumando a mala, iam para a capital. Clavícula fraturada, Creuza se angustiou, mas bem que gostou do movimento. A capital assim de repente, o hospital e uma folga para um volta na rua. Ver o mar, todo mundo recomendava. Ver o mar e seu cheiro molhado do jardim da casa da cunhada rica. Ah, viver ali com o barulho do mar... Sonho impossível. Era a Capão do Galo seu destino, com a casa cheia de negros em quem mandar: dar lavagem aos porcos, catar folhas, pegar galinha... Na capital ia ser mandada. Quero não. O mar que fique lá com suas espumas de sal. Nem andar sabia só, então melhor ser visita, ninguém se impacientava. Da Capão era senhora, cabeça de piaba... nunca rabo de tubarão... O marido ficou bom, Creuza voltou pra mandar...

Vida emprestada

O pai, ah, o pai era doente dos instintos. Não podia ver mulher que os olhos e mais o resto do corpo arregalavam-se. Ele era são; gostava, mas como todo homem nascido macho. Puxava a fama e a inteireza de sua palavra dada e levada até o fim. Nada mais.
Casou com Creuza, plana de corpo e alma. Antipática, ela contrastava com o riso fácil do marido. O marido que o pai não quis pra ela, que não merecia o sogro. Ela não seria feliz, mas foi.
Foi... até o dia em que o carro virou e ele nem mais precisou ir à capital. Tudo ficou resolvido ali mesmo. Era o mar o destino de Creuza, e a solidão, e a vida emprestada para sempre. O pai viveu mais...

O Último beijo

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Era noite e ela trajava vermelho. Uma noiva incomum numa cerimônia comum. A festa havia terminado, mas os lábios carmim pareciam ainda buscar um beijo que não fosse gratuito. Tudo queria lembrar que o tempo é uma traça imortal. A beleza de Felícia era uma taça de cristal quebrada, embora colada.
Não aproveitou o frescor dos anos para guardar seu amor verdadeiro... esperava, pelo menos, que a terra a acolhesse com louvor, embora soubesse que, com aquele gesto, não conquistaria piedade nem lágrimas. Só espanto. Teve a ilusão do poder, mas, no melhor da festa, puxaram o tapete.
Onde, agora, um beijo envolvido choraria sua boca? Onde um corpo sem mácula teria guardado as sobras da bela que já não era?
Aprumava a piteira entre os dedos e soprava a fumaça com força. Na efígie, via o vôo cego dos pássaros e viajava. A piteira, a fumaça já não a faziam tão só; tocavam-lhe, embora sem vigor. Pulmão... por que poupá-lo se tanto lhe feriam os espelhos?
Durante muito tempo preferiu não enxergar as ru…

CARTA A ALEXIS

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(Para M. Yourcenar)

Como não me deste a oportunidade de ler nos teus olhos tudo que disseste, querido Alexis, por medo de ser interrompido ou fraquejar a cada frase, também eu interponho certa distância entre a minha piedade e a tua pessoa; também eu me submeto à traição das palavras, embora, como tu, ache que só a música seja capaz de estabelecer o encadeamento entre os acordes. Foi ela o sinal mais claro. Deixaste-a como por mim e a ela voltaste por ti, quando afinal decidiste tua vida.

Antes de qualquer temor teu de eu pedir para ficares, digo-te que aceito teu adeus, porque agora vejo o rosto de todos os fantasmas anônimos que dormiram conosco durante esses anos e não os quero mais. Neste teu ato de imensa contrição, tua culpa, tua tão grande culpa, foi ter mentido e tanto sofrido por mentir, tanto teres sido infiel a ti mesmo. Já sabias, desde adolescente, que o teu sonho de um dia casar não constituía uma esperança, tu o consideravas agradável na medida em acreditavas que os sonho…