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Mostrando postagens de Agosto, 2012

Extrema-unção

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Teu silêncio era uma porta fechada pra vida  e eu precisava de sol. Tua palavra era crivada de balas e eu escrevia poemas dentro da noite como orações pacifistas. Se era amor, preferi nem saber. Há relações que já nascem com a hora da extrema-unção marcada.
AílaSampaio




Havia

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Havia qualquer coisa de azul nos olhos castanhos dele. Uma nesga de sol rasgando a escuridão, um mar profundo espreguiçando-se no horizonte. Havia neles cheiros de dia amanhecendo
e sons errantes de fados atravessando o silêncio.

Havia cor entre nós, matizes tantas,
que poderíamos pintar o mundo e morar dentro dele, sem cercas, sem muros, sem limites demarcados ou mapas a nos localizar.

Havia nos olhos dele todos os mistérios do vento
e, nos meus, o rompimento do pacto
com a fugacidade do tempo.
AílaSampaio

Eu te amei

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Eu te amei com a sofreguidão de um barco à deriva, fazendo dos teus braços o meu cais derradeiro e definitivo. No mar  turbulento das minhas incertezas, navegaste como se pudesses transcender a tua condição humana e ser um deus. Talvez porque compreendesses as minhas súplicas silenciosas e quisesses atendê-las. Talvez porque pensasses que eras a minha salvação ou eu a tua; talvez porque acreditássemos que o amor nos redimiria de todo sofrimento presente, passado e futuro. Naufragamos nos 'entretantos' que a ausência prolongada cavou em nossas certezas, como um túnel abarrotado de dúvidas e inseguranças. Porto de chegadas e partidas, meu coração cansou do vai-e-vem das embarcações, da turbulência dos ventos; escolheu a solidão por morada, não quer mais ancoragem nem despedidas.


AílaSampaio

Entre o para sempre e o nunca mais

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Ela esperava pelo consentimento dele para ir embora. Esperava ainda um olhar de reprovação para as malas feitas, uma desculpa qualquer para justificar aquela indiferença. O silêncio dele era impenetrável e ela se perdia em suposições. A ele não parecia importar se ela queria ou não entender; se havia ou não explicação. Nada mudou na paisagem durante a indecisão entre ir ou não-ir dela e a mudez dele que crescia como erva daninha no pensamento: ele continuou distante e calado como quem já disse tudo. Ela, como quem não entendeu, não foi embora nem ficou. Resolveu morar numa nesga do tempo entre o para sempre e o nunca mais, um lugar sombrio onde jamais a veriam sofrendo à espera do inesperado.

AílaSampaio

Como se

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Conheço cada centímetro do teu olhar, as cores todas do arco-íris
que ele desenhava
em meus cabelos,
quando teus dedos neles amanheciam
feito pássaros pousados.
Conheço cada milímetro do teu corpo, as infinitas versões do amor
que desenhávamos
nos lençóis
e as das que ficaram para depois,
subtendidas nas promessas que não nos fizemos.

Olho-te  e sinto
como se te conhecesse desde sempre,  como se te pertencesse de antigamente a minha história;
como se, saídos de dentro do tempo para o infinito,
 tivéssemos nos acolhido definitivamente, depois de tantos séculos um do outro perdidos.
AílaSampaio

Primavera no outono

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Aprendi contigo a florescer sem jardim sob as nuvens úmidas que regavam as nossas vontades. Aprendi contigo as matizes do mar beijando o céu de azul e escandindo na noite os versos que as estrelas ditavam. Foi contigo que aprendi a posição dos girassóis e a luxúria das orquídeas,  reinventando lágrimas e alternando sorrisos pela lição dos loucos que se souberam fazer livres dos próprios desejos. Aprendi contigo a espera da flor, o silêncio da terra gestando a semente, o espinho escondido sob as folhas e o desabrochar de cada pétala... Foi contigo que aprendi a trazer a primavera  para o outono e a sentir a eternidade  do momento que passa mas fica para sempre.

AílaSampaio