VIRANDO O JOGO


Depois que ouviu Mestre Raimundo, Marieta baixou a cabeça e levantou da cadeira. Saiu apressada, desviando a cortina de xitão azul. Jogou umas cédulas na mesa da atendente adunca e só respirou quando perdeu o sobrado de vista. Tão católica e procurando aquelas coisas. Esconderia do marido, mas, de Deus... O que diria Padre Tobias no confessionário?

Estava dividida entre acreditar ou não nas revelações. Caminhou tropeçando em sua culpa, encompridando o caminho, para ver se chegava em casa mais aliviada. Não poderia dar crédito à leitura das cartas. Nem dos búzios. Eram revelações tolas, inventadas por um velho charlatão. Não sabia por que ficara até o fim. Além de pagar para ouvir aquelas asneiras, ainda tinha de conviver com a culpa de ferir a Deus. Deus... onde Ele estava que não via o marido escorregar-lhe pelos dedos?

Tanta missa, tanta reza e tudo inútil. Nem precisava do jogo de búzios para saber. Foi só por curiosidade e necessidade de uma confirmação. Imagine. Ter a confirmação pela boca de um velho que nunca viu. Deveria dizer aquilo a toda mulher que o procurava. Se ia lá, era porque tinha problemas dessa natureza. Quem é feliz e bem amada não procura essas coisas. Nem quem tem fé nos poderes divinos. E ela tinha. Tinha?

Resolveu subir no primeiro ônibus que parou. Sentou na cadeira da frente, agarrando sofregamente a bolsa e fixando o olhar no vidro dianteiro, que parecia devorar o asfalto. Pensou na atitude que ia tomar. É, não dava mais para não tomar uma atitude. Ninguém fazia serão daquele jeito. E ele ainda tinha a cara de pau de inventar sempre a mesma mentira. Também! Se ele falasse a verdade, com todas as letras, morreria. A certeza seria pior que a dúvida. Seria a morte. Enquanto duvidasse, tinha esperança. Que tolice. Era certa a traição. Ela é que não queria aceitar. Fingia que não era com ela.

Entrou em casa e deu de cara com ele, esparramado no sofá. De longe, já sentiu o cheiro do perfume da outra. Era seco, arrogante, denunciador. Quis dizer que sabia de tudo, mas se conteve, por medo de ouvir a verdade. Mestre Raimundo disse que seu casamento estava por um fio, por causa de uma mulher. Quem seria? Mais nova que ela? Independente? Liberada? Melhor nem saber.

Ele lançou-lhe um olhar desconfiado e reclamou da janta não estar ainda pronta. Ela correu para a cozinha, estrelou uns ovos e improvisou a comida. Depois quedaram-se mudos diante da televisão. Ele se mostrava ansioso, impaciente e decidiu desabafar. Ela ficou pálida, esperando. Ele disse saber o que passava na cabeça dela e que não se continha mais de tanta revolta. Havia se casado com uma mulher neurótica, ciumenta. Ela, atônita, ficou pensando em que momento demonstrou suas suspeitas... disfarçou tanto... Ele estava tão indignado que pediu a separação. Ela ajoelhou-se, pediu perdão e mais uma chance.

Ele prometeu ficar, desde que ela mudasse. Ela mudou. Voltou a ir à igreja e deixou de demonstrar insegurança. Estava tudo bem, não estava? Se ele tivesse uma amante, teria dito naquela hora!

Ele, sempre com ar de vítima, continuou com os serões e com o cheiro arrogante do perfume que ela, num lapso, pensou ser da outra.

Comentários

  1. Aíla, adorei seu conto, essa fina ironia de desamparos.
    Havia mesmo uma outa?
    Havia mesmo o perfume?
    Cada um encampa suas conclusões, suas "opiniães", eis a questã.
    O que importa é que a dúvida se reveste com a poesia do cotidiano. Ou que a poesia do cotidiano melhore a vida estragada das pessoas.
    Paz e bem

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  2. Muito bem tramado revelando as fraquezas humanas de parte a aprte.
    abcs

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  3. Intrigante e realista. Ao mesmo tempo, clássico e requintado, esse Conto me deixou uma dúvida: Afinal, o marido traiu ou não sua esposa?
    Muito interessante, é mais uma obra da genial magia, encanto e sedução com que Aíla cria suas obras, sempre prendendo a nossa atenção, e nosso interesse na leitura nos seus Contos.
    Abraços.

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