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Mostrando postagens de Abril, 2011

As tintas da vida

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Na instabilidade dos ventos estão o movimento e as cores da vida. Se é brisa, sente-se leveza, faz tempo azul de bonança e dão-se sorrisos fáceis. No vendaval, perturbam inquietações acinzentadas, preocupações que franzem o cenho e alongam os dias. Se cai um temporal, faz-se céu plúmbeo de desespero, ouvem-se gritos, escorrem lágrimas, voam páginas do livro ainda nem escrito. Nesse tempo escuro, pássaros não cantam e a alegria sofre, sepultada viva em faces contraídas. A vida assim se desenha. Cada um que pinte a sua com as cores que o coração lhe der. As tintas estão dentro de nós, não lá fora, aonde tanto procuramos.

Urgentemente

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amor, aquele vendaval que me descabelava e me deixava ultimamente
de andrajos,
foi o último trapo que vesti
em tua homenagem. 
Não quero mais fantasiar-me de mulher feliz
nem andar à toa pelos estreitros becos da solidão que me deste por morada.
Quero a liberdade de não amar urgentemente; a nudez do teu corpo (que era meu bem mais precioso) podes levar, não me fará nenhuma falta.

Aíla

De repente

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Noites adentro em teu corpo desvendando mapas, procurando tesouros sonhando acordada, e, de repente, tua ausência ocupando toda a casa, doendo-me como ventos arrastando os telhados; como portas escancaradas que batem na madrugada.

O que nos cansa?

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Há dias em que o coração amanhece cheio de pássaros cantando. O movimento da vida rebobina sangue nas artérias e aciona os dispositivos desligados pelo cansaço. O que nos cansa? Certamente não é o trabalho; é a ginástica que fazemos todos os dias para sobreviver à falta de educação das pessoas que não têm noção de quem existem outras no mundo (além delas mesmas), à violência que nos espreita em alguma esquina da cidade. A mídia não dá trégua, faz questão de nos deixar na expectativa: serei a próxima vítima. O que nos cansa é a insatisfação com o que temos, a não aceitação do que somos, a falta de fé no que virá. Vivo, por decisão, um dia de cada vez. Aprendi, com a maturidade, a só vê o que realmente interessa e a selecionar as preocupações. Com o que não é essencial, faço como a Scarlet O'hara, digo: "penso nisso amanhã". E o vento que leve o que não é leve. Não abro mão da alegria de estar viva, ter o que tenho e ser o que sou!

Saudade antiga

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Essa saudade que às vezes me visita não é de nada já vivido. É de algo novo, mas tão antigo que nem tem rosto. É um desejo de me espalhar em mim, de me encontrar em mim, sem o sal do suor que derramei inutilmente, sem o doce que virou amargor em minha língua cansada de enganosos sabores. Essa saudade que sinto de mim é a falta da felicidade que busquei em caminhos errados; é o tempo perdido nos desvios e nos abismos de medos e angústias que me deram as falsas alegrias; é vontade de recuperar meu rosto e minha alma deixados no meio da travessia. Saudade é vontade de viver de novo o que já foi, o que poderia ter sido, o que não será... 

Serenidade

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Serenidade é olhar pra trás e constatar que, se o tempo voltasse, você não mudaria nada de lugar, pois tudo foi exatamente como deveria ter sido.

Caixinha de guardados

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Quando o passado bate à minha porta com suas mãos de afeto, eu a abro pra que ele atravesse o tempo e se faça presente. A minha memória tem uma caixinha de guardados que não emboloram nunca; resistem à cinza das horas e ao imediato que não plantou raiz nem mereceu embalagem! Anos luz de ausência e basta ouvir a voz silenciada pelos desencontros para entender que o tempo, para quem sabe o que é o amor, só passa na cronologia dos calendários... É, Adélia, "o que a memória ama fica eterno"!

Aíla

Em carne viva

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Há muito eu não era tão pó, tão solúvel a olho nu! As emoções extraviadas, as impossibilidades, os descompassos dos passos na estrada, se aumentaram minha tolerância à dor, também fragilizaram minha pele, esse véu que me cobre, mas não consegue esconder o coração em carne viva. Deslizo na líquida existência, sufocada pelos gritos contidos, ressequida pelas lágrimas que não cairam dos meus olhos. Viver é mesmo esse constante extravio, esses estilhaços que juntamos para fazer remendos...viver é não se deixar morrer definitivamente a cada vez que nos matam.

Quando me faltas

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Falta-me o chão, quando me faltas e alta a noite desce pesando em minhas pálpebras. Entro de costas no mar,
depois subo correndo as escadas
e fico que nem Carolina à janela,
olhando as estradas
que nunca me levarão a ti.
Quantas vezes terei que morrer até aprender que não posso mais ressuscitar?

Atrás das janelas...

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De vez em quando uma dor, uma parada pra sofrer a dor. O resto é fuga. É faz de conta que a vida corre sem sobressalto. Os dias passam, o tempo escorre, mas os abismos permanecem fundos. O remédio é seguir sem olhar para baixo nem para trás... não importa que Borges tenha dito "És tudo aquilo que foste perdendo". Sobrevivo a mim mesma e às minhas chagas, porque me recuso a desistir de ser feliz. Sempre haverá um horizonte atrás das janelas para quem acreditar nele. Eu acredito!

Aíla

Pecado

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Entre mim e ti
há uma infinidade de pronomes pessoais,
um inverno torrencial
e os dois últimos mandamentos cristãos.
Não és, pois, somente um amor um amor proibido

por regras ou intempéries.

És um pecado mortal.

Até o amanhecer

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Não vás, é perigosa a estrada para quem sonha. Vem e senta-te ao meu lado para escutar a chuva; pus vinho para resfriar, reguei o queijo com azeite e povilhei-o com orégano como gostas. Tenho as chaves da porta para que entres; vem e descobre outras Américas no mapa do meu corpo, percorre o caminho que te levará ao paraíso. Nada temas. Nenhum mal vai acontecer, não preciso de nenhuma promessa, de nenhuma proposta; nada de perguntas ou respostas. Só quero que proves do meu queijo que bebas do meu vinho e vivas em mim eternamente até o amanhecer.

No limiar dos invernos

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Suportar tua ausência e a certeza de que nunca mais baterás à porta é fechar as janelas para o verde e deixar morrerem todas flores em botão; é esperar a vida passar lentamente como quem ordenha ovelhas e escuta música clássica; é suportar o frio no limiar dos invernos mais densos, e receber a morte, de braços abertos, bem antes do tempo.

Desvarios de maio

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Desse olhar esgarçado sobre o poente dessa lamúria que é o vento antes da chuva fiz a tarde com seus desvarios de maio. Não fosse hoje um domingo qualquer eu teria motivos para não ler e veria TV, bandeira branca a meio-palmo e mansidão para seguir as procissões de Maria.
Mas não é assim o meu desenho tão fácil de distinguir as cores e as linhas rascunhadas. Surpreendem-me vontades de sesta, sono profundo ao meio-dia e saudades que não posso mais matar. Tanta abstinência, tantas orações e o coração não sara... continua a sangrar ao menor esforço e a me matar aos poucos todos os dias.





Porto

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Partir não basta
se só o corpo se afasta
se na vasta solidão do porto
todo adeus quer voltar.



Todos os complementos

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Não quero amor a conta gota
nem felicidade emprestada.
Quero a transitividade do verbo amar
com todos os seus complementos.

Agora,

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vivo
como se não existisses

por isso
vejo tudo
em preto e branco...

Naquele dia

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Eu queria que tivesse sido mentira aquela despedida. Meus olhos borrados o salto enganchando no acelerador e o Fagner com Deslizes na voz pisando a minha dor. Eu queria ter sumido no mundo com a minha ferida ou, se não podia morrer, 
ter ficado contigo pelo resto da vida
naquele dia.

Unguento

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Amar é ficar pelo avesso corpo descarnado ao léo suportando o vento.
Ser em carne viva, e amar quem se arma com punhal ou palavra é vício de sofrimento, não é vida.
Amor deve ser unguento não ferida.