sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

À espera de um eclipse




Quando ouvi tua voz pela primeira vez, uma explosão de silêncios me fez entender que nunca mais eu seria a mesma pessoa. Teu rosto veio depois, por detrás do tumulto das nuvens que anunciavam um temporal. Não, não foste como a primeira paixão, platônica e ansiosa, foste o pasmo essencial dos desesperados que correm no meio da tempestade sem saber aonde ir. 


Passei anos de janela aberta para as estrelas,  procurando as constelações em que te escondias. A cada encontro, um véu caía, e tua nova face refazia todos os percursos e me enredava num amor novo que, eu sabia, era o mesmo, só que travestido de realidade. Da realidade que revelava tuas imperfeições e te tirava do céu, mas te trazia à terra e nos aproximava.

À espera de um eclipse, dormi muitas vezes em braços que não eram os teus. Depois os esquecia e deixava o tempo reacender teu cheiro até tua voz me chamar pelo nome, o nome de estrela que me deste antes de me perderes entre os rascunhos dos teus poemas. 

Descobri, tantos anos depois dessas idas e vindas, que a matéria de que foi feito nosso amor não se desintegra. Repousa invisível, mas sempre desperta na carnação dos sentidos, mesmo quando, na atonia dos desesperados que correm na tempestade, não sabe exatamente aonde ir, mas vai. E sempre nos encontra à espera um do outro, como na primeira vez em que nos vimos. Como na primeira vez em que ouvi a tua voz e uma explosão de silêncios me ensurdeceu para o resto do mundo.




Aíla Sampaio  

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Nunca me esqueci de ti


Faz tempo que não tenho notícias tuas. Na verdade, tenho evitado saber, porque não quero ter certeza de que desististe de nós. Nem quero que saibas ou que saibam que ainda me importo. Ando ocupada em fazer de conta que o passado está morto, mas continuo a carregá-lo, a escondê-lo por detrás das portas que nunca baterei. Sigo como se nada disso se passasse comigo, como se não fosse minha a história que vivo.

Não sei se o que sinto é saudade. Se essa ausência que me abraça é tua ou da certeza que me davas de que eu nunca mais seria sozinha. Fico a imaginar onde deixamos a necessidade de ouvir a voz do outro todos os dias, desde quando se perdeu aquela intimidade que nos permitia dizer o que pensávamos e sentíamos a qualquer hora. Agora, não sei mais o que acontece quando acordas, com quem conversas ou o que te falam, porque o silêncio construiu um muro de incertezas entre nós. E como estranhos, não temos o direito a perguntas ou questionamentos, nada podemos cobrar sobre o que o vento traz aos nossos ouvidos e fere e que, por isso, preferiríamos não ter escutado.

Faz tempo que nos despedimos pela última vez, e eu sabia mesmo que não voltaria a ver-te, mas é como se aquele adeus se arrastasse no tempo e não se consumasse de forma definitiva. Como uma hemorragia que não estanca e sabemos que não suportaremos até sempre.

Lembro que nos prometemos nunca nos perdermos, nunca deixar a distância crescer mais, que fazíamos planos para o futuro como se ele fosse existir; não passava pela minha cabeça que ele pudesse ser um abismo de lembranças. Esqueci que o mundo gira e as peças do tabuleiro mudam, que os sentimentos, na nossa idade, podem ser soterrados pela razão. Hoje, acordei com a tua falta me habitando, com teu sorriso atravessando meus olhos como no primeiro dia em que nos vimos... que posso, então, dizer-te, senão que nunca, nunca me esqueci de ti?


Aíla Sampaio

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Dentro dos livros


Quando ele perdeu o cheiro de chuva

que me acordava nos dias quentes,

escondi-me dentro dos livros

transformada em palavra escrita. 
 

A vida,

como uma frase evasiva,

fez os dias 
 
terminarem sempre numa página arrancada

para que nunca se lesse

a paisagem dos meus pensamentos

recentes

ora incertos como arbitrárias vírgulas

ora suspensos por longas reticências...



Quando ele perdeu o cheiro de chuva

que arrancava a poesia dos meus desertos

nos transformamos apenas em

personagens de livros diferentes.



Aíla Sampaio


 

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

De sapatos novos




Numa esquina qualquer de abril, 
 
ela deixou a atenção que ele não lhe deu, 
 
os telefonemas que não retornou, 
 
e a vontade inútil de vê-lo com vontade dela... 
 
Largou a caixa vazia nos desvãos das horas 
perdidas e irrecuperáveis. 
 
"O que não foi é porque não deveria ter sido", resignou-se.

Viu que já era maio, com suas ruas claras 
 
e seu cheiro de flores. 
 
Sem vontades inúteis, olhou a paisagem de festa
 
e viu as respostas do tempo em seus sapatos novos…
Ficou alguns minutos em silêncio, 
 
depois jurou que teria cuidado 
 
para não os perder na escadaria errada mais uma vez!




Aíla Sampaio 
 

Via de mão única










Habituei-me a ti como às ruas por onde passo automaticamente. 
A mesma paisagem após o café,
a sempre mesma palavra a Deus por mais um dia, 
a mesma vontade de outro olhar que esvaziasse a mesmice que viramos. 

Teu corpo, via de mão única do meu percurso diário, 
escorregou do meu desejo... 
fez-se apenas um quadro na parede da sala; 
um móvel que (não) posso trocar de lugar. 



Aíla Sampaio

Meia-volta








Eu sei que te prometi sorrisos ao meio-dia 
e tardes de domingo menos monótonas. 
Bem que eu tentei cumprir, 
mas a vida deu meia-volta em nossas vontades, 
e as nossas alegrias 
nunca mais coincidiram.
 


Aíla Sampaio

Tu sabes





Tu sabes a ordem das estrelas nas constelações 
e o movimento dos ventos .
Sabes tudo das estações e dos climas amenos 
que ancoram nessas paisagens,
decifras esfinges, acalmas vulcões,
mas não és capaz de ler nos meus olhos
as marés cheias e os tornados 
que se fazem quando chegas e logo te vais... 



Aila Sampaio

sábado, 6 de maio de 2017

um poema inconcluso



Tu és palavra que se pronuncia no escuro,
um nome por detrás dos muros da memória,
aprisionando o presente no passado.
E eu,
rio em cheia a procurar um córrego
na claridade do dia,
um poema inconcluso
na solidão de um livro nunca lido.


Aíla Sampaio


como um verso



Ainda sinto teu gosto de pêssego, 
tua manhã nascendo, 
tuas ondas quebrando em minhas areias. 

Ainda sobrevoas o meu sono 
e habitas as minhas palavras e os meus silêncios, 
como um verso que quer, 
de qualquer jeito,
 ser escrito!




Aíla Sampaio 



domingo, 12 de fevereiro de 2017

ORAÇÃO


Livra-me, Senhor, dessas horas de saudade
dessas exasperadas horas
que desafiam os ponteiros
e se eternizam como se fossem anos.
Tira-me essa sofreguidão do olhar
que se demora na lembrança
do que devo esquecer
e não permita que minhas inseguranças
me impeçam de tentar
o que posso conseguir .
Que o desengano não tome conta
nunca da minha alma
quando não for possível
atingir um objetivo
e que eu nunca use armas para mudar
a realidade que não seja a palavra justa.
Que os 'apesares' da vida não sejam jamais justificativas
para desistir de um sonho,
e que as pessoas que cruzarem o meu caminho
compreendam que não sou perfeita,
mas estou em busca de aperfeiçoamento.
Que eu só guarde dentro de mim
o que for bom
e nunca me arrependa do que fiz
ou deixei de fazer,
pois o que me motivou foi sempre
a verdade do meu coração. 
 
 
Aíla Sampaio 
 
(Foto na Catedral de Sal - Zipakirá - Colômbia, 2016)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Talvez



 


Ela sempre se apressa em mudar o rumo que os pensamentos tomam quando atravessa a rua e sente a tarde cair sobre os flamboyants floridos. Há qualquer punhal escondido sob o tapete de pétalas vermelhas que a faz sangrar; há lembranças ainda úmidas da última primavera em que se sentiu dona de um jardim. Talvez devesse jogar as recordações na primeira chuva, para que o passado escorresse pelas quatro águas de sua memória. Talvez devesse nunca esquecer que alguns amores já nascem com a data da extremaunção; deixá-los vingar é permitir um crime contra a própria felicidade.

Aíla Sampaio

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Ele



Ele nunca chegava em horas quebradas ou pronunciava uma frase sem azulejar a sintaxe; eu detestava formalidades e tinha um português sofrido. Ele media, somava, ajustava os óculos e guardava um olhar para o encardido das lembranças; eu fazia tudo por intuição, desordenada e perdida como todas as mulheres que não nasceram para os serviços de casa. Ele nunca me disse a que veio, mas eu sempre soube. Todo mistério tem as suas brechas. Toda fresta tem um olho curioso pra encostar. Tínhamos, os dois, uma vida só pelo lado de dentro, mas éramos diferentes demais para ser tão parecidos e conviver sob o mesmo teto!



Aíla Sampaio
 
 
 

Carta ao tempo II



Foto: Wiron Batista (1991)



Ah, tempo tu não tens sido relativo pra mim. Andas escasso sempre e tens me tirado de onde quero demorar-me. Tens arrancado as minhas melhores páginas para que eu escreva novas, quando tudo o que eu queria era passar aqueles rascunhos a limpo. Tá certo, eu precisava aprender que tu não voltas, mas por que não me deixaste entender isso, na hora adequada, pra que eu pudesse "salvar" os arquivos antes que tu os deletasses? Não quero a vida no preto e branco da pressa, soterrada nas buzinas dos carros, na lista do supermercado, nas contas a pagar. Não sei viver no vermelho dos desencontros e das decepções, nas obrigações afiveladas na agenda. Quero demorar-me no cheiro de lavanda dos lençóis, nos poemas de Drummond e Adélia, no café da manhã com os meus filhos, no abraço do homem que amo. Quero ser dona das minhas horas, senhora de meus minutos e arbitrar sobre as minhas pausas.... Não quero desavenças contigo, por isso te peço: vamos nos entender! Deixa que os meus momentos me pertençam, que eu decida a velocidade dos ponteiros do meu relógio!!!

Aíla Sampaio 




segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Calmaria




Não quero mais a paixão, o arrebatamento da ansiedade, o desejo inadiável e urgente que atravessa avenidas sem olhar o trânsito ou pula muros sem medo de tiros. Não, não quero mais o que me inquieta a alma sem  trégua, o pensamento submisso às incertezas, mesmo com a embriaguez vadia dos momentos fugazes. Quero mais não. Prefiro a placidez das certezas, a cumplicidade dos olhares que escrevem as verdades mais silenciosas na alma. Prefiro o abraço desapressado, a serenidade da espera e a sobriedade dos gestos. Quero o amor com a sua calmaria de rio escorrendo em minhas veias. 




Aíla Sampaio




Saudades






Teu nome
salta-me dos olhos
e borra o papel.

Saudades não sabem escrever poemas.
 
 
 
Aíla Sampaio
 
 
 
 
 

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Teus lugares em mim



                                                                                             Foto: Anabela Guerreiro



Teus lugares em mim
 

são cavernas antigas
veredas onde hibernas
após descruzados olhares 
e duas taças de gim

são palavras e lágrimas
portas que se fecham
barco que naufraga
qual passado assombrando a noite
 e sacudindo as vagas.



Aíla Sampaio 


sábado, 13 de fevereiro de 2016

Coração em carne viva








Piso o asfalto molhado sem sapatos e saio a correr sobre as lembranças que o cheiro de chuva me traz. Sou outra vez a menina do meu pai, descabelada e austera, disfarçando as lágrimas em sorrisos para não perder a pose. Ah, como chorava atrás da porta aquela menina para que nem ela mesma visse! Como demorou a admitir sua alma azul, sua delicadeza de pássaro sem asas! Cobria com silêncios seu coração em carne viva, escondia as chagas das suas mãos em poemas, soterrava em solidão as fraturas expostas da alma. Mas algo dentro dela voava pelo infinito e tomava novas formas com a fome de vida que avançava em seus desejos, como uma luz que atravessa a escuridão. Ela continua pisando duro e olhando firme, mas aprendeu a dizer que ama quem ama, a esvaziar-se das mágoas, a perdoar e a perdoar-se, defendendo-se dos reveses da vida, mas não mais de si mesma.


Aíla Sampaio

Para sempre ou nunca mais


Recomeço


sexta-feira, 15 de janeiro de 2016


o hoje




A cada dia a vida ganha um novo desenho com cores e traços inesperados. Não adianta querer aproveitar os rascunhos do ontem nem os rabiscos do amanhã. O hoje é absolutamente autônomo em sua novidade.

Aila Sampaio

domingo, 27 de dezembro de 2015

Entre o nada e a mágoa




Dos incêndios de que fui labareda
restam as cinzas.
Nada permanece, nem mesmo o sentimento:
estreita vereda por onde os córregos
desviam as águas...

Entre o nada e a mágoa
escrevo e, 
com a minha palavra,
um novo dia nasce
devorando a carne do tempo
refletindo nos espelhos
a minha perdida face.

Se é de vento a nossa casa no mundo
se tudo é vão ante o tufão
da morte que tudo arrasta
e finda até o que mal tem começado,
que seja intensa a vida
e bem colhido cada dia...

que vire flor todo punhal arremessado!

*
Aíla Sampaio




terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Mais um ano termina...





A cada ano que termina tenho a impressão de que se fecha um novo ciclo. Impressão apenas, porque do dia 31 de dezembro passamos para 1 de janeiro sem que mude a cor dos nossos olhos, sem que a conta bancária engorde ou os planetas mudem de rota. Mas o que é a vida senão impressões? Tudo é simbólico e nos chega pela representação que fazemos. Se eu penso que tudo se modifica porque o ano virou, se eu penso que terei dias melhores e os meus projetos tão adiados se realizarão, vai ver que será assim mesmo. O querer e o pensar têm força. Dizem. Pode ser que sim. Na dúvida, vou à luta: sonhando, imaginando, realizando. Esperando o melhor, transformando o 'pior' que à vezes recebo... imperfeita como sempre, mas sem pretensões de canonização... Quero apenas melhorar, sair do vermelho emocional, criar laços que não desatem tão fácil, rir mais junto aos que amo, ser mais compreensiva com os que estão vivos mas ainda não nasceram... (Ò Deus, onde paciência com os imaturos que não querem sair do verde nunca???). Continuarei preferindo fazer inimigos com a minha sinceridade a fingir um samaritanismo que não me identifica! Feliz vida a todos!



terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Palimpsesto






Não herdamos somente a cor dos olhos ou o terreno na praia. Herdamos jeitos e trejeitos, modos de pensar e destinos. Podemos nos desligar geograficamente das nossas raízes e até negá-las, mas não podemos jamais arrancá-las. Somos um palimpsesto onde a história dos nossos antepassados se reescreve.

Aíla Sampaio





domingo, 6 de dezembro de 2015

Paisagem suspensa





Há em ti uma paisagem suspensa, uma escuridão qualquer entre a realidade e o sonho. Meu olhar te atravessa e desnuda, não teme o confronto, parece que sabe os caminhos que deve percorrer e as esquinas que deve evitar.

Aíla Sampaio





segunda-feira, 9 de novembro de 2015

É preciso matar e morrer pra continuar vivendo

Nunca mais te direi o que me entristece nem os motivos da minha insônia. Nunca mais ouvirás o meu chamado nem saberás do quanto andei triste, bordando as tardes com lágrimas que nem o sol conseguiu secar. 

Deixei a noite  atravessar os meus dias numa impertinência voraz de pássaros sonâmbulos, para que a minha boca mastigasse o  teu nome. Nunca mais o pronunciei desde  o tratado de paz silencioso que usamos para nos proteger da dor. 

Evitamos o confronto das nossas razões, mas a memória, fustigada pela falta que fazemos um ao outro, sempre busca uma faca para cortar as flores que plantamos em nossas lembranças. Ninguém se separa de quem ama impunemente.

É preciso desconstruir as imagens, rasgar as alegrias congeladas nos ideais que insistem, reavivar as farpas, desalgemar-se das ilusões e dormir sobre as mágoas redivivas pra caminhar rumo ao esquecimento. É preciso matar e morrer pra continuar vivendo.

Aila Sampaio

Tempo de estio







Tempo de estio: 
pedras no caminho 
e coração vazio.

Aíla Sampaio 


 

quinta-feira, 8 de outubro de 2015


Eu e o poeta, certa noite em Copacabana, trocando confidências...





O que eu tinha a dizer perdeu a importância. Só o silêncio comporta a integridade das palavras com que não consigo traduzir o que sinto. Nasci com o fuso horário defeituoso: estive sempre me antecipando ou atrasando, num vai-e-vem de cedos e tardes que nunca me permitiu a serenidade do tempo certo.

De repente o vazio, essa tempestade oca, que arrasta telhados inexistentes e apavora os pássaros que cantam para me acordar... Não adianta contabilizar os anos vividos para saber a minha resistência. As idas e vindas de humor, amor, desamor e amarguras não têm medida possível nem registro além dos vincos na pela e na alma.

Escondo-nos atrás de lentes e sorrisos para conjugar o verbo 'passar' sem lágrimas. E tento ser feliz mesmo sem saber o que me resta.

Aíla Sampaio



quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Sob o signo do efêmero






 Tudo é nosso sempre temporariamente. Já nascemos sob o signo do efêmero e da imprevisibilidade. É a vida, que, como dizia o poeta Júlio Salusse, é "manso lago azul, algumas vezes mar fremente". Que mistério a faz tão mágica e, ao mesmo tempo, tão trágica?

           Como numa gangorra, ora estamos no chão, ora no alto. Do riso faz-se o pranto, como versejou Vinícius; das lágrimas formam-se rios de felicidade. Onde a lógica para tanta mudança de humor e estações? Onde a explicação para as tão enigmáticas estradas que nunca sabemos aonde vão dar? Caminhamos imaginando um destino que só se desenha no limiar do agora.

           Viver será sempre costurar auroras a crepúsculos, mas manter as pontas soltas; será sempre um alinhavo cuja linha pode romper-se a qualquer movimento. Nada dura pra sempre e, se não podemos deter o que há de bom, também teremos prazo para o fim das nossas tragédias íntimas. Se a certeza da fugacidade nos retém às perdas, também dá trégua às nossas dores.
          O grande aprendizado é equilibrar-se nas incertezas; fazer contas que não fecham quando almejamos resultados exatos sem o desespero de ficar, de vez em quando, no vermelho.  Somos tão perecíveis quanto a fruta que espera a dentada (ou o apodrecimento) na fruteira. Temos urgências e desesperos atravancados em longas filas de espera. Como sobreviver a tanto dilaceramento?

          Entendendo que o tempo é HOJE sempre! Vivendo as agruras e as benesses com a mesma coragem e humildade, guardando no coração somente o que foi bom. Não há fórmulas. Há posturas diante dos acontecimentos, aprendizados com a experiência. Só ela nos pode dar discernimento para gritar ou calar; para declarar estado de emergência ou sucumbir de uma vez. Não há livro de autoajuda que nos cure a dor de ter uma alma que não cabe no próprio corpo! Não há existência pacífica... Somente a aceitação da própria condição pode nos impulsionar às mudanças, pois não se cura um mal se ele não for diagnosticado.

          O que fazer, então, nessa fila interminável de esperas que é a vida? Não há outra forma senão viver... um dia de cada vez, de olhos abertos para a luz e sem expectativas! Sem lamentar o trem perdido, o amor que se foi, a oportunidade que passou, porque todas as coisas têm o seu tempo exato para acontecer e o seu prazo de permanência. O que verdadeiramente nos pertence nunca sai definitivamente da nossa história. Pode até ir, mas sempre dará um jeito de voltar.  E, se não voltar, será o melhor que nos poderia ter acontecido. 

Aíla Sampaio


À espera de um eclipse

Quando ouvi tua voz pela primeira vez, uma explosão de silêncios me fez entender que nunca mais eu seria a mesma pessoa. Teu ros...