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como um verso

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Ainda sinto teu gosto de pêssego, tua manhã nascendo, tuas ondas quebrando em minhas areias. Ainda sobrevoas o meu sono e habitas as minhas palavras e os meus silêncios, como um verso que quer, de qualquer jeito, ser escrito!

Aíla Sampaio

ORAÇÃO

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Livra-me, Senhor, dessas horas de saudade
dessas exasperadas horas
que desafiam os ponteiros
e se eternizam como se fossem anos.
Tira-me essa sofreguidão do olhar
que se demora na lembrança
do que devo esquecer
e não permita que minhas inseguranças
me impeçam de tentar
o que posso conseguir .
Que o desengano não tome conta
nunca da minha alma
quando não for possível
atingir um objetivo
e que eu nunca use armas para mudar
a realidade que não seja a palavra justa.
Que os 'apesares' da vida não sejam jamais justificativas
para desistir de um sonho,
e que as pessoas que cruzarem o meu caminho
compreendam que não sou perfeita,
mas estou em busca de aperfeiçoamento.
Que eu só guarde dentro de mim
o que for bom
e nunca me arrependa do que fiz
ou deixei de fazer,
pois o que me motivou foi sempre
a verdade do meu coração.  Aíla Sampaio  (Foto na Catedral de Sal - Zipakirá - Colômbia, 2016)

Talvez

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Ela sempre se apressa em mudar o rumo que os pensamentos tomam quando atravessa a rua e sente a tarde cair sobre os flamboyants floridos. Há qualquer punhal escondido sob o tapete de pétalas vermelhas que a faz sangrar; há lembranças ainda úmidas da última primavera em que se sentiu dona de um jardim. Talvez devesse jogar as recordações na primeira chuva, para que o passado escorresse pelas quatro águas de sua memória. Talvez devesse nunca esquecer que alguns amores já nascem com a data da extremaunção; deixá-los vingar é permitir um crime contra a própria felicidade.
Aíla Sampaio

Ele

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Ele nunca chegava em horas quebradas ou pronunciava uma frase sem azulejar a sintaxe; eu detestava formalidades e tinha um português sofrido. Ele media, somava, ajustava os óculos e guardava um olhar para o encardido das lembranças; eu fazia tudo por intuição, desordenada e perdida como todas as mulheres que não nasceram para os serviços de casa. Ele nunca me disse a que veio, mas eu sempre soube. Todo mistério tem as suas brechas. Toda fresta tem um olho curioso pra encostar. Tínhamos, os dois, uma vida só pelo lado de dentro, mas éramos diferentes demais para ser tão parecidos e conviver sob o mesmo teto!


Aíla Sampaio

Carta ao tempo II

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Foto: Wiron Batista (1991)


Ah, tempo tu não tens sido relativo pra mim. Andas escasso sempre e tens me tirado de onde quero demorar-me. Tens arrancado as minhas melhores páginas para que eu escreva novas, quando tudo o que eu queria era passar aqueles rascunhos a limpo. Tá certo, eu precisava aprender que tu não voltas, mas por que não me deixaste entender isso, na hora adequada, pra que eu pudesse "salvar" os arquivos antes que tu os deletasses? Não quero a vida no preto e branco da pressa, soterrada nas buzinas dos carros, na lista do supermercado, nas contas a pagar. Não sei viver no vermelho dos desencontros e das decepções, nas obrigações afiveladas na agenda. Quero demorar-me no cheiro de lavanda dos lençóis, nos poemas de Drummond e Adélia, no café da manhã com os meus filhos, no abraço do homem que amo. Quero ser dona das minhas horas, senhora de meus minutos e arbitrar sobre as minhas pausas.... Não quero desavenças contigo, por isso te peço: vamos nos …

Calmaria

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Não quero mais a paixão, o arrebatamento da ansiedade, o desejo inadiável e urgente que atravessa avenidas sem olhar o trânsito ou pula muros sem medo de tiros. Não, não quero mais o que me inquieta a alma sem  trégua, o pensamento submisso às incertezas, mesmo com a embriaguez vadia dos momentos fugazes. Quero mais não. Prefiro a placidez das certezas, a cumplicidade dos olhares que escrevem as verdades mais silenciosas na alma. Prefiro o abraço desapressado, a serenidade da espera e a sobriedade dos gestos. Quero o amor com a sua calmaria de rio escorrendo em minhas veias. 




Aíla Sampaio