segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Calmaria




Não quero mais a paixão, o arrebatamento da ansiedade, o desejo inadiável e urgente que atravessa avenidas sem olhar o trânsito ou pula muros sem medo de tiros. Não, não quero mais o que me inquieta a alma sem  trégua, o pensamento submisso às incertezas, mesmo com a embriaguez vadia dos momentos fugazes. Quero mais não. Prefiro a placidez das certezas, a cumplicidade dos olhares que escrevem as verdades mais silenciosas na alma. Prefiro o abraço desapressado, a serenidades da espera e a sobriedade dos gestos. Quero o amor com a sua calmaria de rio escorrendo em minhas veias. Quero dormir e acordar sem sobressaltos sobre a presença ou a ausência da pessoa amada. Quero acreditar que é possível acreditar no me foi dito e não ter nunca motivos para duvidar ou mentir. Não quero jamais compartilhar sentimentos com que precisa fazer de conta que é feliz. 


Aíla Sampaio


Saudades






Teu nome
salta-me dos olhos
e borra o papel.

Saudades não sabem escrever poemas.
 
 
 
Aíla Sampaio
 
 
 
 
 

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Teus lugares em mim



                                                                                             Foto: Anabela Guerreiro



Teus lugares em mim
 

são cavernas antigas
veredas onde hibernas
após descruzados olhares 
e duas taças de gim

são palavras e lágrimas
portas que se fecham
barco que naufraga
qual passado assombrando a noite
 e sacudindo as vagas.



Aíla Sampaio 


sexta-feira, 15 de janeiro de 2016


o hoje




A cada dia a vida ganha um novo desenho com cores e traços inesperados. Não adianta querer aproveitar os rascunhos do ontem nem os rabiscos do amanhã. O hoje é absolutamente autônomo em sua novidade.

Aila Sampaio

domingo, 27 de dezembro de 2015

Entre o nada e a mágoa




Dos incêndios de que fui labareda
restam as cinzas.
Nada permanece, nem mesmo o sentimento:
estreita vereda por onde os córregos
desviam as águas...

Entre o nada e a mágoa
escrevo e, 
com a minha palavra,
um novo dia nasce
devorando a carne do tempo
refletindo nos espelhos
a minha perdida face.

Se é de vento a nossa casa no mundo
se tudo é vão ante o tufão
da morte que tudo arrasta
e finda até o que mal tem começado,
que seja intensa a vida
e bem colhido cada dia...

que vire flor todo punhal arremessado!


Aíla Sampaio




terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Mais um ano termina...





A cada ano que termina tenho a impressão de que se fecha um novo ciclo. Impressão apenas, porque do dia 31 de dezembro passamos para 1 de janeiro sem que mude a cor dos nossos olhos, sem que a conta bancária engorde ou os planetas mudem de rota. Mas o que é a vida senão impressões? Tudo é simbólico e nos chega pela representação que fazemos. Se eu penso que tudo se modifica porque o ano virou, se eu penso que terei dias melhores e os meus projetos tão adiados se realizarão, vai ver que será assim mesmo. O querer e o pensar têm força. Dizem. Pode ser que sim. Na dúvida, vou à luta: sonhando, imaginando, realizando. Esperando o melhor, transformando o 'pior' que à vezes recebo... imperfeita como sempre, mas sem pretensões de canonização... Quero apenas melhorar, sair do vermelho emocional, criar laços que não desatem tão fácil, rir mais junto aos que amo, ser mais compreensiva com os que estão vivos mas ainda não nasceram... (Ò Deus, onde paciência com os imaturos que não querem sair do verde nunca???). Continuarei preferindo fazer inimigos com a minha sinceridade a fingir um samaritanismo que não me identifica! Feliz vida a todos!



terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Palimpsesto






Não herdamos somente a cor dos olhos ou o terreno na praia. Herdamos jeitos e trejeitos, modos de pensar e destinos. Podemos nos desligar geograficamente das nossas raízes e até negá-las, mas não podemos jamais arrancá-las. Somos um palimpsesto onde a história dos nossos antepassados se reescreve.

Aíla Sampaio





domingo, 6 de dezembro de 2015

Paisagem suspensa





Há em ti uma paisagem suspensa, uma escuridão qualquer entre a realidade e o sonho. Meu olhar te atravessa e desnuda, não teme o confronto, parece que sabe os caminhos que deve percorrer e as esquinas que deve evitar.

Aíla Sampaio





segunda-feira, 9 de novembro de 2015

É preciso matar e morrer pra continuar vivendo

Nunca mais te direi o que me entristece nem os motivos da minha insônia. Nunca mais ouvirás o meu chamado nem saberás do quanto andei triste, bordando as tardes com lágrimas que nem o sol conseguiu secar. 

Deixei a noite  atravessar os meus dias numa impertinência voraz de pássaros sonâmbulos, para que a minha boca mastigasse o  teu nome. Nunca mais o pronunciei desde  o tratado de paz silencioso que usamos para nos proteger da dor. 

Evitamos o confronto das nossas razões, mas a memória, fustigada pela falta que fazemos um ao outro, sempre busca uma faca para cortar as flores que plantamos em nossas lembranças. Ninguém se separa de quem ama impunemente.

É preciso desconstruir as imagens, rasgar as alegrias congeladas nos ideais que insistem, reavivar as farpas, desalgemar-se das ilusões e dormir sobre as mágoas redivivas pra caminhar rumo ao esquecimento. É preciso matar e morrer pra continuar vivendo.

Aila Sampaio

Tempo de estio







Tempo de estio: 
pedras no caminho 
e coração vazio.

Aíla Sampaio 


 

quinta-feira, 8 de outubro de 2015


Eu e o poeta, certa noite em Copacabana, trocando confidências...





O que eu tinha a dizer perdeu a importância. Só o silêncio comporta a integridade das palavras com que não consigo traduzir o que sinto. Nasci com o fuso horário defeituoso: estive sempre me antecipando ou atrasando, num vai-e-vem de cedos e tardes que nunca me permitiu a serenidade do tempo certo.

De repente o vazio, essa tempestade oca, que arrasta telhados inexistentes e apavora os pássaros que cantam para me acordar... Não adianta contabilizar os anos vividos para saber a minha resistência. As idas e vindas de humor, amor, desamor e amarguras não têm medida possível nem registro além dos vincos na pela e na alma.

Escondo-nos atrás de lentes e sorrisos para conjugar o verbo 'passar' sem lágrimas. E tento ser feliz mesmo sem saber o que me resta.

Aíla Sampaio



quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Sob o signo do efêmero






 Tudo é nosso sempre temporariamente. Já nascemos sob o signo do efêmero e da imprevisibilidade. É a vida, que, como dizia o poeta Júlio Salusse, é "manso lago azul, algumas vezes mar fremente". Que mistério a faz tão mágica e, ao mesmo tempo, tão trágica?

           Como numa gangorra, ora estamos no chão, ora no alto. Do riso faz-se o pranto, como versejou Vinícius; das lágrimas formam-se rios de felicidade. Onde a lógica para tanta mudança de humor e estações? Onde a explicação para as tão enigmáticas estradas que nunca sabemos aonde vão dar? Caminhamos imaginando um destino que só se desenha no limiar do agora.

           Viver será sempre costurar auroras a crepúsculos, mas manter as pontas soltas; será sempre um alinhavo cuja linha pode romper-se a qualquer movimento. Nada dura pra sempre e, se não podemos deter o que há de bom, também teremos prazo para o fim das nossas tragédias íntimas. Se a certeza da fugacidade nos retém às perdas, também dá trégua às nossas dores.
          O grande aprendizado é equilibrar-se nas incertezas; fazer contas que não fecham quando almejamos resultados exatos sem o desespero de ficar, de vez em quando, no vermelho.  Somos tão perecíveis quanto a fruta que espera a dentada (ou o apodrecimento) na fruteira. Temos urgências e desesperos atravancados em longas filas de espera. Como sobreviver a tanto dilaceramento?

          Entendendo que o tempo é HOJE sempre! Vivendo as agruras e as benesses com a mesma coragem e humildade, guardando no coração somente o que foi bom. Não há fórmulas. Há posturas diante dos acontecimentos, aprendizados com a experiência. Só ela nos pode dar discernimento para gritar ou calar; para declarar estado de emergência ou sucumbir de uma vez. Não há livro de autoajuda que nos cure a dor de ter uma alma que não cabe no próprio corpo! Não há existência pacífica... Somente a aceitação da própria condição pode nos impulsionar às mudanças, pois não se cura um mal se ele não for diagnosticado.

          O que fazer, então, nessa fila interminável de esperas que é a vida? Não há outra forma senão viver... um dia de cada vez, de olhos abertos para a luz e sem expectativas! Sem lamentar o trem perdido, o amor que se foi, a oportunidade que passou, porque todas as coisas têm o seu tempo exato para acontecer e o seu prazo de permanência. O que verdadeiramente nos pertence nunca sai definitivamente da nossa história. Pode até ir, mas sempre dará um jeito de voltar.  E, se não voltar, será o melhor que nos poderia ter acontecido. 

Aíla Sampaio


quinta-feira, 9 de abril de 2015

De repente


De repente o que era tão importante já não é; o que fazia diferença já não faz; o que movia os ponteiros do nosso relógio já não os move, como se o tempo tivesse estancado tudo o que foi para não mais ser. De repente a vida acrescenta ou elimina personagens da nossa história, alternando posições, remanejando sentimentos, ora nos contrariando, ora nos satisfazendo, mas sempre movimentando a engrenagem da vida e guardando as explicações...

Aíla Sampaio



quarta-feira, 1 de abril de 2015

Finalmente





Eu te esqueci descendo as escadas,
retirando o  pó dos móveis,
olhando no espelho
os sulcos deixados pelo pranto em minha pele.
Da presença à sombra
demoraste muitas  taças de vinho
e  amargurosos poemas.
Foram muitas rezas para desfazer-se o quebranto,
e abrirem-se as fissuras
na carne do tempo.
Finalmente quebraram-se as algemas
e viraste lembrança desbotada num porta-retrato.
Finalmente, veio a vontade assassina de soterrar teu nome
entre os indigentes do meu passado.

Aíla Sampaio

sexta-feira, 6 de março de 2015

A vida é hoje



Essa primavera que eu trago
lacerada por invernos intermitentes
há de atravessar o tempo de estio
e plantar flores no indócil outono.
Entrelaçados ao mormaço da tarde
como num pergaminho antigo
meus versos já não são de amor;
apreenderam o orvalho das manhãs
mas só guardaram a penumbra das noites insones.
Quero ainda a solidão das manhãs chuvosas
e sem testemunhas 
sob os lençóis ensandecidos
com que cubro todas as lembranças.
O que se foi pouco importa... menos ainda o que virá.
A vida é eternamente hoje. Aqui. Agora.


Aíla  Sampaio

domingo, 1 de fevereiro de 2015

A vastidão do meu mundo  desenha-se entre as quatro paredes onde me escondo com os meus fantasmas. Do lado de fora, a vida acontece e não espera que as minhas tragédias íntimas tenham fim, para marcar o próximo passo. Fujo, mas, quase sempre, me vejo obrigada a descer as escadas  e ir pra guerra desarmada. O que me amedronta não são as balas nem a iminência da morte. É essa casa desmoronada que me habita; é a incapacidade de erguer novas paredes para recomeçar e sobreviver aos meus enigmas.




sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Sem trégua




Minha vida sempre foi andar de salto alto sobre um varal de incertezas. Nasci  em carne viva e com a natureza moldada pro eterno, mas o mundo só me deu o provisório. Nasci pra andar descalça sobre brasas e não emitir um 'ai' sequer; pra ser de paz e dizimar as guerras, mas cedo me vi de armas nas mãos e jogada na luta com uma ordem imposta: ou mata ou morre! Não escolhi... foi minha sina essa morte diária pendurada nos olhos, esse desassossego de ventos a vestir-me na pele da noite,  sem dar trégua às minhas tempestades.

Aíla Sampaio

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Via crucis





Fiz-me das sobras da tua sorte como se eu fosse a sombra das tuas árvores. Fechei tantas vezes os olhos pra não enxergar a chaga, mas a vida fez questão de estampá-la nas pedras dispostas no caminho, na nossa incompetência para desviá-las e criarmos nós mesmos a nossa estrada. Desisti das roupas de Amélia e vesti as de Madalena para fazer a via crucis daquele amor, na esperança de que, após a morte, houvesse a ressurreição. Restaram-me silêncios, espasmos de interrogações sem resposta e o resto da vida pra costurar as incertezas.


Aíla Sampaio




Não engulo mais lágrimas nem desaforos. Não escondo mais amor nem sofrimento. Se viver é um verbo escandaloso, porque conjugar suas delícias e dores em silêncio?

Aíla Sampaio

terça-feira, 13 de janeiro de 2015





Nunca lamente o trem perdido, o amor que se foi, a oportunidade que passou. Todas as coisas têm o seu tempo exato para acontecer e o seu prazo de permanência. O que verdadeiramente nos pertence nunca sai definitivamente da nossa vida. Pode até ir, mas sempre dará um jeito de voltar... Se não voltar, será o melhor que nos poderia ter acontecido.

Aíla Sampaio 





As folhas de papel se espalham sobre a mesa. As tintas descoram as palavras, mas o sentimento não desbota com o tempo. Sentada com os braços apoiados numa almofada, ela lê vagarosamente cada uma, fechando de vez em quando os olhos, como quem está sendo beijada. Depois repassa fotografias, suspendendo pausadamente a respiração como se quisesse reviver os momentos congelados no tempo. Há anos não acende a lareira nem corta os cabelos. Há anos escreve cartas que não envia. Vive escondida de si mesma, sepultada nas lembranças que inventou pra não enlouquecer.

Aíla Sampaio



(Mulher Lendo, Van Gogh).

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Caminha devagar pra não acordar minha saudade... Se não podes cuidar dela, deixa-a dormir!

Aíla Sampaio


A poesia







A poesia é uma forma de inventar e desinventar amores. É bom vê-los começar e terminar sem lágrimas, despencando apenas das palavras que lhes deram a luz. A linguagem poética cria, recria e descria realidades sem tocar uma nesga de sua concreta (?) estrutura. Assim, encontros se fazem, despedidas latejam, dores adormecem e acordam no mesmo compasso. Gosto de fazer rastejar o que me põe a alma cansada. Gosto de fazer com as palavras o que não posso fazer com os olhos e as mãos. Mas nada, absolutamente nada, tem certidão de nascimento, nome ou endereço. Tudo nasce e desnasce sem compromisso com o que, quem ou quando. A poesia é minha deserção desse mundo que, por mais íntimo que tente se fazer, me é inevitavelmente estranho.

 Aíla Sampaio