quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

A cidade



A cidade de me esconde
entre ruas e esquinas,
perdida em mim
como suas avenidas
entre semáforos e arranha-céus.

Não sabe do mundo inteiro
que dorme
quando fecho os olhos
nem que suas ruas e casas
são apenas artérias de um corpo
onde a geografia
não dimensionou mapas.

A cidade me esconde
sob suas luzes
e não percebe
nos subterrâneos abismos
dos meus olhos,
um coração que pulsa
e é maior que ela. 



Aila Sampaio 

(De olhos entreabertos)

Retrato





Não tenho mais o teu rosto fixo na memória
como um retrato na moldura.
Acho que despencou parede abaixo,
estraçalhou-se no assoalho manchado
dos desejos não satisfeitos.
Restou o papel encardido de esperas
com a irreconhecível fisionomia
de um homem antigo
cujos olhos não mais se reconhecem.
São assim as terras por que pisamos inseguros
e das quais voltamos de mãos vazias:
terra apenas, sem flores nem água;
é assim o rosto que já foi amado
quando entra no território do esquecimento:
uma fisionomia borrada apenas, mais nada.

*
Aila Sampaio

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Para não te esqueceres



Para não te esqueceres
das verdades que me dizias
brincando,
há as ruas
que não mais atravessas comigo,
há as casas de muro baixo
nas mesmas esquinas
em que paravas pra roubar flores
e enfeitar os meus cabelos.

Talvez não te lembres
que sonhavas em me dar
um jardim,
mas eu não me esqueço
de que te prometi manhãs ensolaradas
e não cumpri.

O tempo ergueu muros altos
entre os nossos desejos e a realidade
e as nossas vontades se perderam
pelos caminhos
que trilhamos separados.
A nossa história,
entretanto,
ainda anda
por aquelas calçadas
e os jardins ainda florescem
sem notícias do futuro que
planejávamos.

Aíla Sampaio


terça-feira, 20 de novembro de 2018

Sinais





Eu ainda me importo
porque é feito de tumulto o nosso silêncio
e sei que sabes, como eu,
do pavor enjaulado nas palavras
que nos recusamos a pronunciar.
Ainda me importo
com a nossa alegria andando descalça
no piso escorregadio da memória
e com a tristeza  que grita teu nome
em cada gole do café amargo que sobrou na xícara.
Sim, não deveria, 
mas me importo com a tua ausência
esvaziando os meus pretextos pra saber de ti,
me importo com os sinais
de que pouco te importas
 se eu bater a porta de vez. 

Aíla Sampaio





segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Convite




Quando me olhas
é como se eu voltasse pra casa 
depois de uma longa viagem, 
como se eu despertasse com um beijo, 
após um sono milenar, 
e aceitasse o teu convite 
pra escrever uma história de amor
com final feliz.



Aíla Sampaio

sábado, 16 de junho de 2018

Despejo



Meu corpo
te deu
ordem de despejo.
Meu coração,
não.

Ainda pulsa
imberbe
o desejo
de atravessar a vida
de mãos dadas.

Ainda há,
sob os despojos
do último beijo,
uma estrada
que dá em teus olhos
antes de dar em nada.

Aíla Sampaio

sábado, 28 de abril de 2018

Desde os contos de fadas


Eu te esperava desde os contos de fadas,
quando a esperança galopava um cavalo branco
e os príncipes existiam;
desde um imemorável maio
quando, em pranto, vi a luz do sol
esgarçar o dia pela primeira vez.
Desde a água benta na pia batismal,
eu te espero sorver o sal da vida
que nos predestinou no livro de Jó.
Sob as chuvas ou contando estrelas,
cresci para ti, as mãos cheias de ardis
para enredar-te em meus braços,
nunca mais ser só.
Separaram-nos silêncios hostis 
e maçãs envenenadas,
até teu olhar redimir-me 
no nosso novo primeiro encontro
quando nos juramos calados
nunca mais dizer adeus.
Enfim
nos encontramos no outono,
mas as secas folhas do passado
que já  tinhas antes da minha chegada
soterraram impiedosamente todos os meus sonhos.
Aíla Sampaio

A cidade

A cidade de me esconde entre ruas e esquinas, perdida em mim como suas avenidas entre semáforos e arranha-céus. Não sabe do mundo intei...