Mordi o lábio contrafeita. Odiava-o naquele dia até sempre. Peguei a mala e sai atropelando a mágoa em uma tentativa de superioridade que não me era possível. Meu corpo doía como se uma tempestade o vergasse para direções impossíveis. Ele não haveria de saber da lágrima que embargava minha garganta. Não haveria.
Ainda lembro: “supostamente” ele disse “não tenho certeza” quando o interpelei sobre não saber ser feliz. Ele nunca tinha certeza das coisas e eu sempre voltava a Joyce recostada na poltrona. Ulisses, difícil e fragmentado como eu, recortava o silêncio e me fazia padecer.
Até que sai com o instante atravessado no peito, o nó, a lágrima paralisada. Eu, a mala e Ulisses escada abaixo com o barulho da porta batendo para sempre e a culpa de ter esperado o ódio arrombar as janelas e secar nossos lençóis. Ele não haveria de saber que pensei em ficar. Não haveria de morder o lábio contrafeito nem de me pedir para voltar. Era tarde demais para algum sofrimento.
Poemas, contos, imagens... palavras e silêncios. Mergulhos e naufrágios de AílaSampaio
terça-feira, 14 de agosto de 2007
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CICLO INEVITÁVEL
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