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Mostrando postagens de Outubro, 2012

Guardados

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Guardo de ti o inapreensível,
o olhar fulgurando em silêncios
a nudez descarnada do pensamento.
Guardo de ti o que nunca me deste,
o que a vida fartamente te negou
e fez a mim faltar.
Guardo de ti as ausências prolongadas,
a mudez escandalosa
e o beijo adiado para nunca mais.


Aíla Sampaio





Reinventa-me

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Reinventa-me.
Redesenha meu rosto em tua memória
e refaz o esboço do meu retrato.
Há muito nos perdemos pelas avenidas
molhadas daquele setembro
e, desde então, meu calendário
só contou os dias para trás.
Reinventa-me para que o tempo passe
e eu reencontre as ruas ensolaradas do teu verão
pra nunca mais viver à deriva,
morrendo de frio e saudade.


Aíla Sampaio




Lançamento do livro DE OLHOS ENTREABERTOS em SP

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Com o meu querido amigo poeta Anderson Cristofoletti


Foto: Karina PF

Ser

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Vou sempre além de, ultrapasso medidas, passo dos limites, conjugo o verbo amar em todas as pessoas, tempos e modos, e arrisco todas as fichas numa só jogada. Prefiro de repente não-ser a ser pela metade.
Aíla Sampaio






Indiferença

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Faltam-me fôlego e palavras para te condenar ou absolver. É preciso que te movas, que me desassossegues com o teu olhar de navalha, que tires do sério a minha altivez, para que não te reste, afinal, apenas a minha mais irreversível indiferença.
Aíla Sampaio






O melhor

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Nunca lamente o trem perdido, o amor que se foi, a oportunidade que passou. Todas as coisas têm o seu tempo exato para acontecer e o seu prazo de permanência. O que verdadeiramente nos pertence nunca sai definitivamente da nossa vida. Pode até ir, mas sempre dará um jeito de voltar... Se não voltar, será o melhor que nos poderia ter acontecido.

Aíla Sampaio




Descuidada

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Tenho dormido sobre os sonhos, tropeçado nas esperanças. Ando descuidada com os espaços em branco, daí tanta permissão para rabiscos mal feitos, borrões e rasuras em minha história. Ando me escondendo do sol, mofando pelos armários, com hematomas na memória e escoriações na alma. Ando sangrando as palavras para que não sangre eu mesma, ou morra de tristeza e tédio como uma tela inacabada envelhecendo na parede. Ando sofrendo, mas sei que isso passa antes que eu peça a conta e vá embora.

Aíla Sampaio




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Entretempo

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Fez sol no entretempo
entre o teu pensamento e a minha decisão;
até pareceu que a data estava marcada
para o céu amanhecer azul
sob a cinza do nevoeiro.
Não importa que a chuva tenha caído depois
ou que o tempo tenha descumprido
todos os nossos acordos,
nos encontramos, afinal, e nada pode
apagar o que vivemos
nem tornar metade o que sempre será inteiro.

Aíla Sampaio



Para sempre

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Eu não quero que estejas em mim por enquanto;  quero que fiques para sempre.  Que não sejas uma nesga de tempo arrancada do calendário,  parando os ponteiros do relógio,  mas que construas a eternidade da tua alma na minha,  por uma lei irrevogável.  Que não sejas somente um poema  que espera aqui dentro para ser escrito,  mas que sejas a própria plenitude da poesia  nascida de ti em mim.
Aíla Sampaio



À toa

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Andei alheia à vida,
atravessando avenidas
sem olhar para os lados,
querendo não ver a tua ausência;
comigo, só o olhar perdido
no sol vermelho do fim de tarde
e um sorriso postiço como os cílios manchados
que os teus dedos não tocaram.
Andei ocupada em me perder
pra não te encontrar mais em meus pensamentos,
pra não contar mais os dias sem ti
nem escutar o que as minhas inseguranças
insistem em dizer.
Andei e ando pensando bobagens,
rasgando papéis
e borrando a maquiagem à toa.
Aíla Sampaio



Como se nunca fosse tarde

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Ele carregava pássaros nos pensamentos e andava ao vento como se nunca fosse tarde. Percorria as avenidas interditadas dos meus sonhos, sorrateiro e melancólico, como um poeta que sabe afiar as palavras, mas gosta mesmo é do silêncio delas.
Eu o amei até a última possibilidade
de ser feliz sozinha 
em companhia de alguém.  
Aíla Sampaio




Contigo

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Eu te vejo todas as manhãs
como se acordasses comigo.
E à tarde, na sesta, te encontro escondido
sob as dobras do meu pensamento.
Por um momento me curvo ao frio da distância,
mas logo, à noite, em silêncio, converso contigo
até adormecer para te encontrar no meu sonho
e outra vez acordar
como se em teus braços houvesse dormido.


Aíla Sampaio





Tudo mise-en-scène.

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Quando tu foste embora,
fiz de conta que não era comigo;
que não era à minha porta que batia aquela dor.
Saí por aí a comprar vestidos novos
e me pus a deletar arquivos no computador
como quem apaga uma página da história
e recomeça a vida com novo figurino.
Tudo mise-en-scène.
Quando a cortina caiu,
a tristeza vestiu-me com os seus trapos e entendi que realmente havíamos saído de cartaz...


Aíla Sampaio