Pacote pesado


Terminava não em silêncio. Ela recostada na poltrona com os olhos úmidos de culpa sentenciava: acabou. Ele vitimado sempre num silêncio ensurdecedor não queria entender. As crianças. As dívidas. As dádivas. Um pacote pesado sobre ela irredutível. Seca, áspera, esponjava por dentro de nojo. Tudo menos pedir amor. Isso ele não fizesse. Ele fez. Implorou lucidez, amor.

Noites intermináveis fingindo dormir. Pesadelo nos olhos cerrados evitando conversa. Nem há mais o que dizer. Repetir tudo todo dia cansa, confunde. Ela não queria correr o risco de reconsiderar, de tê-lo sobre o seu corpo, de... Ela não conseguiria mais simular tolerância. Impacientava-se dilacerada pelos olhos molhados de acusação. Fria calculista egoísta. Não importavam os adjetivos. As farpas batiam e voltavam em seu corpo petrificado de recusa.

Noites intermináveis. Dias intransponíveis. Lugar comum. Ele acordava feliz como se não fosse com ele. Fazia planos. Difícil prolongar tanta coragem. Teve pressa de morrer. O outro nem sabia que era o outro. Alimentava os desejos dela como a um bicho alheio que não oferece risco de pertencer. Dizia "voa" e ela inflava, abria as asas. Já ganhava o céu e o outro disse medroso de responsabilidade ou de amor: "fica". E se foi. Ela ficou. Mastigando dolorida o alpiste que sobrou. Engasgada. Exaurida no silêncio de quem apenas consente a vida.

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