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Mostrando postagens de Maio, 2011

Mergulho

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Quem olha o mar se procura olha-se por dentro, vê-se pelo avesso, equilibrando-se na instabilidade das ondas e da alma.
Quem olha o mar busca-se, interroga-se roga por si, na oração do silêncio, e mergulha-se.




Dores de estimação

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Por mais que nos proclamemos felizes e bem-resolvidos, e até acreditemos nisso, todos temos os nossos ranços, uns guardados que resistem à faxina existencial que de vez em quando fazemos. Não por conta da formação católica e do cultivo à culpa cristã, mas pela própria natureza humana, temos as nossas dores de estimação. Em um dos seus poemas mais lúcidos (inclusive musicado pela Zélia Dunkan), Paulo Leminski diz “um homem com uma dor / é muito mais elegante / ... / carrega o peso da dor como se portasse medalhas / uma coroa um milhão de dólares / ou coisa que os valha / ópios édens analgésicos / não me toquem nessa dor / ela é tudo que me sobra” /.../. Não se trata de mazoquismo ou culto ao sofrimento, mas da admissão de uma postura comum exatamente às pessoas bem-resolvidas: temos o nosso porão, algumas portas íntimas hermeticamente fechadas, nossas dores imperecíveis.



Não é por isso que não somos felizes! O que é a felicidade senão momentos de distração? Essa arma quente, como canta …
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Narcissus por William T. Ayton




Tenho medo de narcisos, pois não sei ser alimento pra fome deles...

Aíla

Não acredito mais no pote de ouro no final do arco-íris

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Acho que perdi a disposição pra ficar triste, mesmo que apenas de vez em quando. Também para pagar o preço por felicidades emprestadas, aquelas que, durante algumas horas levam às nuvens, mas, a qualquer instante, fazem desmoronar nosso ânimo e nos depositam na morada de Hades. Metaforicamente, claro. O tempo passou pro meu coraçãozinho e ele ficou comodista, não tem mais encanto por flechas de cupido, ao contrário, foge delas com medo da picada. Uma hemorragia a essa altura da vida pode ser fatal.



Não quero mais arrebatamentos, ansiedade se o amado não vem, insegurança se ele silencia por alguma razão. Não quero mais borboletas no estômago, a náusea da emoção desordenada; nem ficar alheia olhando o céu, quando o sinal já abriu e as buzinas nervosas dos carros azucrinam. Não, não quero mais esse estado de graça que, ao menor temporal, nos deixa em petição de miséria existencial.


Não quero mais arrastar correntes ou vagar pelo deserto quando houver desentendimento. Nada de comportar-me …
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Cansei de coisas mais ou menos, de pessoas razoáveis e situações quase. A maturidade me fez exigente: quero a vida em sua inteireza, sem gambiarra.









Recuso a liquidez

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Termino de ler “Amor líquido”, do sociólogo polonês Zigmunt Bauman, de quem já havia lido “Modernidade líquida”, e uma lágrima escorrega vadia dos meus olhos. É que toda fragilidade me comove. Sempre fui intensa e verdadeira nos sentimentos, e vê-los, de repente, feitos laços frouxos, que se desatam à toa, me deu uma imensa tristeza. Ter como estranha uma pessoa com que já se teve muita intimidade é muito doloroso.



Nasci numa época em que se comprava nas bodegas e tudo era anotado num caderninho. A garantia era a palavra. Amizade era uma relação séria, atávica até. Hoje tudo se dissolve num piscar de olhos, por motivos quase sempre banais (ou contornáveis com o diálogo e a compreensão mútua)... ficou machucada essa flor – a amizade – exposta aos espinhos da vaidade, do egoísmo, da incompreensão.


Viver num mundo líquido, quando não se sabe nadar, é dilacerante. Ninguém, ou quase ninguém, escapa do risco de escorrer entre os dedos dos outros, pois estamos todos globalizados na fluidez. …

NADA REALMENTE ACONTECE POR ACASO?

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Acredito que nada acontece por acaso. Mas acredito também que, muitas vezes, provocamos o acaso com as nossas atitudes. Nós, os aparentemente normais, nem sempre controlamos a ansiedade, nem sempre somos maduros o suficiente para aceitar críticas, nem sempre temos controle emocional para lidar com situações tensas. Não sabemos esperar. Agimos por impulso, precipitamos os fatos, tiramos a borboleta do casulo antes de amadurecidas as suas asas, depois culpamos o destino por ela não poder voar. A pressa para chegar nos faz pegar desvios e nos tira dos olhos o melhor da paisagem. Estamos constantemente atropelando o tempo, a fala das pessoas, os acontecimentos que poderiam ter tido outro desfecho se soubéssemos esperar o desenrolar natural das coisas.



Antecipamos o sofrimento quando não queremos sofrer e desistimos de um amor quando nos julgamos impotentes diante das dificuldades. Lembro-me sempre do poeta Gonçalves Dias, que foi incrivelmente irrealizado afetivamente, por ter desistido da…

Tela vazia

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Vejo-te e é como se não te visse; nem parece que já foste a cor dos meus dias.
Maltratos e descuidos, algaravias... bastou isso pra descolorir nossa aquarela e esfumaçar teu vulto, fazer-teapenas uma tela vazia.








Manhã outra vez

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De súbito, um raio de sol  furou o escuro quarto em que dormia meu coração. Encandeado, ele vacilou, resistiu à luz e jogou-se dabaixo dos lençóis. Desacostumara de mesuras. Tornara-se monocórdico, acomodado aos pontapés da tanta indiferença de um sol de meio-dia que se pôs a amar sem proteção. Desde então, só queria sombra. Maltrapilho e desengonçado, só saía às madrugadas para juntar-se aos pardos. Mas eis que uma fresta se abriu no telhado - pancada de uma pedrada na calada da noite - e um raio insistente de sol fez manhã outra vez em sua vida. Chegara a sua vez de pulsar por algo que realmente valia a pena. Fez-se coração outra vez e saiu pra vida... arriscou-se à felicidade sem medo de novos crepúsculos.


Por que escrevo...

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Costumo dizer aos meus alunos da disciplina Estética e Linguagem que a arte, além da função catártica de que falou Aristóteles, é, para mim, tão imprescindível e tão necessária como comer, ir ao banheiro e dormir. Ainda bem que a tenho para não morrer de verdade, como falou Nietzsche. Escolhi a literatura (ou ela me escolheu, já nem sei), porque ler e escrever são as minhas formas de conseguir equilíbrio e sobrevivência emocional. Por isso escrevo... para não ver as feridas abertas, para não sentir o coração em carne viva.



Escrevo para não gritar pela rua, feito louca que rasga a roupa e se desmancha em praça pública, na alegria legítima que só a insanidade permite; a diferença é que não nasci blindada pela inconsciência, pela ausência de censura, e tive que, a ferro e fogo, aprender a engolir as minhas dores... trago ainda muitas delas atravessadas na garganta e, quando chove, elas se movimentam, fazem barulho, para me mostrar que ainda estão vivas.

Escrevo para não morrer de repente…

Preconceito

Todo preconceito é sinal de impotência, medo...os desastrados emocionalmente precisam extravasar o próprio vazio lançando seu ódio contra quem ameaça suas frágeis estruturas. Quanta tristeza me dá a constatação de que alguns adultos permanecem na infância e brincam de vida!

Guardar a criança que fomos é saudável, mas nunca soltá-la para crescer é doentio!

HOMENAGEM PÓSTUMA

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Vivo como se não existisses, por isso vejo tudo em preto e branco.

Pouco me importa
se estás vivo ou morto;
já não te procuro
já não oro por ti
já não caio em pranto.








Sendo Feliz

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Meu pavio é muito curto para as coisas ruins...não tenho paciência nem vocação pra ser infeliz, vítima eterna do destino. Acostumei-me a engolir seco às vezes, dormir sobre pedras, mas gosto mesmo é de conforto...deitar a alma em travesseiros macios e dormir sobre as plumas de uma consciência limpa. Atravesso esquinas escuras e já não tenho medo do que pode (ou quer) me fazer mal. Podem me  fazer sofrer, mas me vingo sempre sendo FELIZ!

As pessoas

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As pessoas passam pela nossa vida e o que deixam florescer tem a ver com a semente que plantaram. Algumas vão embora e a gente sente falta, um vazio enorme no coração. Outras deixam mágoas e sempre pensamos nelas com certa dor. Há as que deixam alívio, a leveza de quem deixa um peso no caminho. Há, ainda, as que não deixam absolutamente nada...pareciam importantes, mas, quando faltaram, nada faltou...é como se nunca tivessem existido!


Sem anestesia

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Pequenas eternidades fazem o meu mundo de felicidades provisórias: um pássaro na janela uma flor que abre - minúsculas epifanias que mantêm os meus olhos abertos.
As feridas que nunca cicatrizam, as dores sem analgésicos, deixo que sangrem, que doam: assim meu corpo, em carne viva, veste cada hora como um unguento e entrega ao tempo cada profundo corte.
Ter coração à mostra é ter fratura exposta, é viver todo dia sem anestesia o dia da própria morte.

Aíla

Enganosa cor

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É verdade que não és como pensei: simples e puro como frutas colhidas no pé. Tua polpa suculenta foi imaginação da minha boca, da minha língua que, sem provar, criou teu sabor.
Talvez sejas apenas um pomo de ouro,
nas mãos de Éris, ou sazonal fruto que deixa cair a casca e mostra seu legítimo gosto, sua enganosa cor.





Pessoas são como bichos

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Há pessoas que são ternas como o canto dos pássaros. Elas conseguem acordar nossos melhores sentimentos e nos ensinar que somos livres para ser o que somos. Outras são como as abelhas: só fazem o doce da vida na própria colmeia; se saem dela, picam com seu ferrão, provocando terríveis dores. Há, ainda, as que são como escorpiões. A proximidade humana exacerba sua natureza nociva, e o veneno que escondem escorre nos traiçoeiros botes; vivem do poder danoso dos seus tentáculos, mas, sem eles, são apenas uma inútil carcaça. Salvo os casos patológicos, todos podemos escolher o bicho que nos é conveniente ser. Não esqueçamos, porém, que os bichos não têm alma; nós temos.


Aíla

Tão fundo mar

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Tão fundo o mar e tanta mágoa rasa para afogar
a canoa virada os remos largados  os olhos no infinito perdidos e a vida à deriva sem saber navegar Quem vai nadar em tão tristes águas para me salvar?



Descalça

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Parece que nasci descalça para andar em estradas com espinhos. Mas Deus fez os meus pés fortes. Sangram, mas logo saram e recomeçam a caminhada, porque é meu destino andar, seguir sempre em frente, a despeito dos vendavais e das marés cheias que me inundam de nostalgia. Tenho o coração em festa e a poesia, que é o meu 'pelo sinal', minha salvação... ninguém escolhe ser assim, em carne viva, simplesmente é e cumpre sua sina porque se vive não por escolha, mas por predestinação. Fugir do destino é atrasar o curso da própria história.