Dores de estimação

Por mais que nos proclamemos felizes e bem-resolvidos, e até acreditemos nisso, todos temos os nossos ranços, uns guardados que resistem à faxina existencial que de vez em quando fazemos. Não por conta da formação católica e do cultivo à culpa cristã, mas pela própria natureza humana, temos as nossas dores de estimação. Em um dos seus poemas mais lúcidos (inclusive musicado pela Zélia Dunkan), Paulo Leminski diz “um homem com uma dor / é muito mais elegante / ... / carrega o peso da dor como se portasse medalhas / uma coroa um milhão de dólares / ou coisa que os valha / ópios édens analgésicos / não me toquem nessa dor / ela é tudo que me sobra” /.../. Não se trata de mazoquismo ou culto ao sofrimento, mas da admissão de uma postura comum exatamente às pessoas bem-resolvidas: temos o nosso porão, algumas portas íntimas hermeticamente fechadas, nossas dores imperecíveis.



Não é por isso que não somos felizes! O que é a felicidade senão momentos de distração? Essa arma quente, como canta Belchior, só dispara de vez em quando ou nossa vida seria um insuportável tiroteio de risadas. Só os loucos de pedra conseguem essa proeza. Nós, os aparentemente normais, oscilamos permanentemente entre o bom e o ruim, o bem e o mal e temos consciência da relatividade dos conceitos. A vida é uma gangorra e com ela nos movimentamos de acordo com nossa disposição de humor, com os acontecimentos que nos cercam e, sobretudo, com a nossa dor de existir que, não poucas vezes, se transforma em alegria de existir.


Quem vive num mundo desordenado como esse e só escuta canto de pássaros e barulho de cachoeira é alienado. O que nos faz  crescer não é a fuga aos problemas ou a evasão pelo sonho e pela fantasia; isso nos ajuda a transpor momentaneamente os obstáculos e a vislumbrar um horizonte possível à frente para não sucumbirmos. O que realmente nos impulsiona e nos torna maiores é a capacidade de transcendência a toda adversidade, a tudo o que contraria a nossa vontade e os nossos desejos mais particulares. A meditação só é válida como preparação para o enfrentamento das crises e das tensões. Somos, na verdade, quem mostramos ser nos momentos graves... só podemos dar o que temos. A forma como reagimos às contrariedades é que revela a nossa verdadeira face.


Martha Medeiros, em uma das suas crônicas, diz que Felicidade é a combinação de sorte com escolhas bem feitas... eu digo que é a nossa capacidade de abstrair os sofrimentos inevitáveis, de conviver com as nossas dores e contrariedades, mantendo a mesma vontade de viver e a crença na humanidade.



Aíla Sampaio

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