NADA REALMENTE ACONTECE POR ACASO?


Acredito que nada acontece por acaso. Mas acredito também que, muitas vezes, provocamos o acaso com as nossas atitudes. Nós, os aparentemente normais, nem sempre controlamos a ansiedade, nem sempre somos maduros o suficiente para aceitar críticas, nem sempre temos controle emocional para lidar com situações tensas. Não sabemos esperar. Agimos por impulso, precipitamos os fatos, tiramos a borboleta do casulo antes de amadurecidas as suas asas, depois culpamos o destino por ela não poder voar. A pressa para chegar nos faz pegar desvios e nos tira dos olhos o melhor da paisagem. Estamos constantemente atropelando o tempo, a fala das pessoas, os acontecimentos que poderiam ter tido outro desfecho se soubéssemos esperar o desenrolar natural das coisas.



Antecipamos o sofrimento quando não queremos sofrer e desistimos de um amor quando nos julgamos impotentes diante das dificuldades. Lembro-me sempre do poeta Gonçalves Dias, que foi incrivelmente irrealizado afetivamente, por ter desistido da sua amada, Ana Amélia, achando que ela seria mais feliz com um homem que pudesse lhe oferecer um futuro material abastado. Anos depois da separação, triste e cabisbaixo, reencontrou-a em Portugal, casada e infeliz, e ficou sabendo que ela teria preferido um futuro simples ao lado do homem que sempre amou: ele. O poeta escreveu o belíssimo poema “Ainda uma vez, adeus!”, mas não pôde voltar no tempo e reparar seu erro. Os dois ficaram para sempre privados do amor de sua vida. Leiamos uma parte do seu lamento tardio:

I
Enfim te vejo! - enfim posso,
Curvado a teus pés, dizer-te,
Que não cessei de querer-te,
Pesar de quanto sofri.
Muito penei! Cruas ânsias,
Dos teus olhos afastado,
Houveram-me acabrunhado
A não lembrar-me de ti!
IV
Vivi; pois Deus me guardava
Para este lugar e hora!
Depois de tanto, senhora,
Ver-te e falar-te outra vez;
Rever-me em teu rosto amigo,
Pensar em quanto hei perdido,
E este pranto dolorido
Deixar correr a teus pés.
V
Mas que tens? Não me conheces?
De mim afastas teu rosto?
Pois tanto pôde o desgosto
Transformar o rosto meu?
Sei a aflição quanto pode,
Sei quanto ela desfigura,
E eu não vivi na ventura...
Olha-me bem, que sou eu!
VI
Nenhuma voz me diriges!...
Julgas-te acaso ofendida?
Deste-me amor, e a vida
Que me darias - bem sei;
Mas lembrem-te aqueles feros
Corações, que se meteram
Entre nós; e se venceram,
Mal sabes quanto lutei!
VII
Oh! se lutei!... mas devera
Expor-te em pública praça,
Como um alvo à populaça,
Um alvo aos dictérios seus!
Devera, podia acaso
Tal sacrifício aceitar-te
Para no cabo pagar-te,
Meus dias unindo aos teus?
VIII
Devera, sim; mas pensava,
Que de mim t'esquecerias,
Que, sem mim, alegres dias
T'esperavam; e em favor
De minhas preces, contava
Que o bom Deus me aceitaria
O meu quinhão de alegria
Pelo teu, quinhão de dor!
IX
Que me enganei, ora o vejo;
Nadam-te os olhos em pranto,
Arfa-te o peito, e no entanto
Nem me podes encarar;
Erro foi, mas não foi crime,
Não te esqueci, eu to juro:
Sacrifiquei meu futuro,
Vida e glória por te amar!
XII
Enganei-me!... - Horrendo caos
Nessas palavras se encerra,
Quando do engano, quem erra.
Não pode voltar atrás!
Amarga irrisão! reflete:
Quando eu gozar-te pudera,
Mártir quis ser, cuidei qu'era...
E um louco fui, nada mais!
XIV
Pensar eu que o teu destino
Ligado ao meu, outro fora,
Pensar que te vejo agora,
Por culpa minha, infeliz;
Pensar que a tua ventura
Deus ab eterno a fizera,
No meu caminho a pusera...
E eu! eu fui que a não quis!
XV
És doutro agora, e pr'a sempre!
Eu a mísero desterro
Volto, chorando o meu erro,
Quase descrendo dos céus!
Dói-te de mim, pois me encontras
Em tanta miséria posto,
Que a expressão deste desgosto
Será um crime ante Deus!
XVI
Dói-te de mim, que t'imploro
Perdão, a teus pés curvado;
Perdão!... de não ter ousado
Viver contente e feliz!
Perdão da minha miséria,
Da dor que me rala o peito,
E se do mal que te hei feito,
Também do mal que me fiz!
XVIII
Lerás porém algum dia
Meus versos d'alma arrancados,
D'amargo pranto banhados,
Com sangue escritos; - e então
Confio que te comovas,
Que a minha dor te apiade
Que chores, não de saudade,
Nem de amor, - de compaixão.

Li esse poema pela primeira vez aos 10 anos e guardo até hoje o livro, mas acho que não aprendi bem a lição. Muitas questões ainda me afligem a respeito do que ocorre na nossa vida: somos meros bonecos à mercê do destino? Fomos predestinados a viver o que vivemos ou nos é cômodo nos isentar da responsabilidade sobre as escolhas que fazemos?

Nada deveria acontecer por acaso, mas somos, creio, inquietos demais para aceitar o que não queremos e deixamos a emoção interferir. Manipulamos, sim, as peças do quebra-cabeça do jogo da vida enquanto a Grande Criador medita... só não queremos assumir a peso da culpa e pagar o preço pelas escolhas erradas depois!


Aíla





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