terça-feira, 5 de outubro de 2010

Tarde

Vontade de ti como, no verão, de um mergulho:
o corpo em chamas pedindo água.
Secos os rios e os olhos...
Já nem choro, só o coração lateja
descompassado sob o peito que arde.



Restam-me apenas o mar e seu pedregulho
meu olhar desfeito, minha boca seca
e a salobra sensação de que cheguei tarde.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

TU E O OUTRO


Não a ti, que eu não amo mais,
mas ao outro que eu amei
e por quem sofro,
é que estendo este olhar perdido sobre as ondas
sonhando um mergulho impossível.


Não por ti, homem comum,
que me teve nos braços e conheceu meu corpo,
mas pelo outro que eu criei e fiz poeta,
é que sinto a dor desse dilacerado engano
que me corta feito um punhal de ouro.
És tu quem enterro hoje
sob os escombros de tantos conflitos;
és tu que faço morto em meu desejo
Não o outro que nunca existiu, nunca esteve comigo.


27/10/10


segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Valsa



Nada mais sei quando começas a dedilhar minha pele

como se tocasses uma valsa.

Rodopios incontinentis atravessam o quarto

enquanto furto as cores das tuas palavras

para desenhar o meu castelo.




Nada mais quero senão passear descalça

sobre os lençóis macios que guardam nossos segredos;

ver teu corpo refletido no espelho

a sangue frio me atravessando

como se atravessasse a brava correnteza de um rio.

sábado, 28 de agosto de 2010

Os amores que vão sem querer


Os amores vão
mas ficam as histórias,
a saudade,
o desejo de que tivesse sido diferente. 

Os amores vão, mas ficam
para sempre
nas fotografias guardadas a sete-chaves,
ficam nos livros trocados, nas músicas ouvidas,
nas lembranças que revoam como se fossem aves,
no silêncio das noites mal dormidas.

Os amores que vão sem querer ir
nunca vão... ficam feito fantasmas
que nos assombrarão por toda a vida.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A primavera não voltará



Quando caírem as últimas folhas do outono
talvez tu te lembres que a primavera
não poderá voltar.
Terás uma lembrança, um retrato talvez,
mas não o amor que eu te dei
e que deveria durar para sempre.
Talvez tu sintas saudade
mas já não poderás matá-la;
talvez queiras de volta as flores
mas já não haverá semente
nem terra onde plantar teus olhos distraídos.
Terei partido num descuido teu qualquer,
sozinha, na noite escura ou ao sol poente,
levando o sentido e as cores da vida
que, nem percebias,
estavam o tempo todo comigo.






Aíla Sampaio
27/08/2010

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Nunca mais



Jaz teu corpo.
Nunca mais tua boca
fará de mim teu alimento.


És um homem morto.


Nunca mais tuas mãos
tocarão meu corpo;
nunca mais nossos olhos
se beijarão em silêncio.

Só o tempo nos unirá um ao outro
quando enterrados estivermos
na indiferença, no esquecimento.



Aíla Sampaio, 22/08/2010

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Cena



Leves os teus dedos pela minha pele,
entre os pelos, entre os planos desfeitos e refeitos,
arrancando-me gemidos, certezas, dádivas, dúvidas.
Traço linha a linha o horizonte do teu corpo
como em tela pintando barcos,
como em argila esculpindo música;
em tuas calmas águas, em teus sedentos beijos
abrindo subterrâneos acordes
sob o branco dos lençóis.


É assim minha astúcia com as tintas
com que te pinto, com o barro com que te visto:
acordo cores em teu regaço,
desenho fontes onde escorrem mágoas.
Depois de feita a arte-final,
por medo ou desilusão, talvez,
esqueço a cena
e te contemplo apenas de longe
como uma tela que não pintei...



Aíla Sampaio - 06/08/10


Viver é dar a cara a tapa

           Sempre repito que o  grande entrave das relações é a falta de diálogo. O silêncio, a omissão de opiniões, sentimentos e dúvidas j...