Como os leitores interpretam os textos que leem?



Escrevo há muitos anos e observo que, assim como na vida as pessoas julgam as atitudes das outras, muitas vezes sem conhecê-las, inspiradas, certamente, em seu próprio modelo, na leitura do texto literário também ocorrem distorções propiciadas pelo mesmo comportamento. Essas minhas reflexões me levaram de volta à ‘Estética da Recepção’, teoria que considera a Literatura enquanto produção, recepção e comunicação, ou seja, uma relação interativa entre autor, obra e leitor.

Claro que não me interessa aqui historiar a teoria literária, mas apenas embasar o meu pensamento sobre a forma como as pessoas recebem o texto que leem. Gostar e não-gostar são reações muito subjetivas. O leitor comum, que não tem pretensões acadêmicas, busca apenas prazer no que lê, quer informação, deleite. Normalmente ele se identifica com textos românticos e existenciais, vê-se em cada palavra ou compreende, por meio dela, o que sentia, mas não sabia (ou conseguia) expressar.


Há, entretanto, uma diversidade de recepções, e isso também nos faz voltar à teoria da Obra Aberta, do Umberto Eco, quando ele diz: “toda obra de arte é aberta porque não comporta apenas uma interpretação”. Pois bem: o que leva o leitor a uma determinada interpretação? Se o texto literário é condicionado pela relação dialógica entre literatura e leitor, certamente, ele interpreta o que lê de acordo com seus próprios referenciais, sua ideologia, sua cosmovisão, seu nível de leitura e, claro, sua circunstância atual.


O leitor ingênuo não lê com isenção. Cai rápido na armadilha do texto, não compreende as metáforas, faz uma leitura tão horizontal quanto o seu pensamento. Acha que tudo é recado pra ele e que há alguém colocando maldosamente o dedo na sua ferida.


O leitor emotivo se embriaga, se vê em cada palavra. Ele lê com o coração, descobre jardins atrás das frases, luas surgindo pelas frestas das sinestesias e janelas se abrindo em metonímias. Não é preciso saber o nome das figuras, só ultrapassar a camada superficial do texto e mergulhar nas entrelinhas, visitar os subtextos, como se visitam os desvãos da alma.


Há quem leia de arma na mão, exatamente como vive: sempre se defendendo do mundo, perseguido pelos próprios fantasmas. Esses leem com o fígado, com a bílis estourada, digerem os textos como se fossem gorduras, distorcem as mensagens, azedam qualquer doce com a amargura que mastigam todos os dias como o alimento que lhes dá sobrevivência (embora às vezes nem percebam).


Assim, aprendi que há leitores e leitores; que devo escrever e ficar preparada para nem sempre ser compreendida. Não tenho a pretensão de agradar a todos, mas tão-somente de expressar a minha verdade que pode, evidentemente, não ser a de muitas outras pessoas. Se uma só semente germinar, já terá valido a semeadura!

(Ei, falo do leitor comum, sem pretensões críticas e acadêmicas!)

Aíla Sampaio




(Gravura do quadro Leitora, de Renoir)

Comentários

  1. Olá, Aíla,

    Muito lúcido seu pensamento!Hoje em dia, cada vez mais, encontramos dificuldades tão grandes na compreensão dos textos, principalmente dos literários...dá uma pena! Porque ler é algo tão apaixonante e instigante, ainda procuro um cupido do amor pela leitura para acertar em cheio nossos estudantes. Abraço,

    Araceli

    www.pedradosertao.blogspot.com

    ResponderExcluir
  2. Sua análise do fenômeno texto-leitor foi muito interessante, pois classificou quatro tipos de leitores: o acadêmico, o emotivo, o ingênuo e o felino (no que há de mais feroz no animal felino). Não há cupido que abra o coração e a mente dos alunos, mas há, sim, uma forma de ver e interpretar o lado belo (ou bom) da poesia e das coisas em geral. O máximo que se pode fazer é mostrar como as coisas podem ser vistas e analisadas.
    Oportuno o seu texto (bem o sabemos!).
    E está dando frutos.
    Bons frutos!

    ResponderExcluir
  3. Olá Aila ! Gosto demais de tudo que você escreve,
    e realmente há leitores de todos os tipos...Adoro passear pelas paginas feitas de emoção...sou do tipo emotivo e você escreve com o coração,esse texto diz tudo...cada qual pega de sua maneira, e como e bom ver as coisas com simplicidade e emoção.
    Abraços carinhosos.
    Marilene.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

ORAÇÃO

Calmaria

um poema inconcluso