Doer faz parte...

Todo crescimento requer um processo. Queimar etapas pode antecipar um ciclo, mas deixa sequelas, muitas vezes, definitivas. O homem que vê a borboleta se debatendo para abrir o casulo ajuda-a a sair, achando que está fazendo o bem; ela sai, mas não consegue voar, as suas asas não têm força. É que elas precisavam do esforço para maturar seu corpo e só então libertar-se. Liberdade antes do tempo é perigoso, implica riscos. Muitas crianças precoces perdem um pouco o sabor da infância; muitos adolescentes que são obrigados a assumir responsabilidades antes do tempo, depois de adultos, querem voltar a ser o que não puderam ser e se comportam de forma infantil, parecendo patéticos aos olhos de quem os observa. A verdadeira criança só se conserva no coração de quem realmente cresceu e sabe diferenciar e adequar prazer e obrigação; compromisso e descompromisso; seriedade e brincadeira, sem transferir culpas e responsabilidades.

Nietzsche diz que “é preciso um grande caos interior para parir uma estrela”. Ângela Ro Ro canta que “a liberdade está na dor”, entretanto, dor e sofrimento são despojos indesejados. Gostar deles implica uma patologia: o mazoquismo. À parte todo exagero, não é difícil admitir que a dor e o sofrimento são necessários, mas os recusamos como ervas daninhas. Ao primeiro sinal de uma dor física, tomamos logo um analgésico... se podemos ‘abortar’ o sofrimento de uma amor perdido, substituindo-o imediatamente por outro, por que não fazê-lo? Passado o efeito, todavia, a causa permanece a nos torturar.


Na verdade, não podemos (queremos) ser contrariados. Vivemos nos anestesiando com remédios, bebidas, ilusões. A alegria, nessa sociedade de aparências, virou uma obrigação, um passaporte para a vida de faz-de-conta a que (quase) todos se acostumaram em nome de uma felicidade postiça que insistimos em acreditar real. É preciso viver a dor, o luto pelas perdas, ir ao fundo do poço e juntar as ‘tralhas’ para jogá-las fora. Sem limpar a casa, como receber bem novos hóspedes? Como estarmos de braços abertos integralmente, sem receio de que caia alguma peça da armadura na qual insistimos em nos esconder, se a mantivermos em punho? Se não nos dispusermos a tirar a nossa máscara, um dia ela ficará definitivamente pregada ao nosso rosto e sequer nós mesmos nos reconheceremos no espelho da nossa alma.

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