terça-feira, 20 de novembro de 2018

Sinais





Eu ainda me importo
porque é feito de tumulto o nosso silêncio
e sei que sabes, como eu,
do pavor enjaulado nas palavras
que nos recusamos a pronunciar.
Ainda me importo
com a nossa alegria andando descalça
no piso escorregadio da memória
e com a tristeza  que grita teu nome
em cada gole do café amargo que sobrou na xícara.
Sim, não deveria, 
mas me importo com a tua ausência
esvaziando os meus pretextos pra saber de ti,
me importo com os sinais
de que pouco te importas
 se eu bater a porta de vez. 

Aíla Sampaio





segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Convite




Quando me olhas
é como se eu voltasse pra casa 
depois de uma longa viagem, 
como se eu despertasse com um beijo, 
após um sono milenar, 
e aceitasse o teu convite 
pra escrever uma história de amor
com final feliz.



Aíla Sampaio

sábado, 16 de junho de 2018

Despejo



Meu corpo
te deu
ordem de despejo.
Meu coração,
não.

Ainda pulsa
imberbe
o desejo
de atravessar a vida
de mãos dadas.

Ainda há,
sob os despojos
do último beijo,
uma estrada
que dá em teus olhos
antes de dar em nada.

Aíla Sampaio

sábado, 28 de abril de 2018

Desde os contos de fadas


Eu te esperava desde os contos de fadas,
quando a esperança galopava um cavalo branco
e os príncipes existiam;
desde um imemorável maio
quando, em pranto, vi a luz do sol
esgarçar o dia pela primeira vez.
Desde a água benta na pia batismal,
eu te espero sorver o sal da vida
que nos predestinou no livro de Jó.
Sob as chuvas ou contando estrelas,
cresci para ti, as mãos cheias de ardis
para enredar-te em meus braços,
nunca mais ser só.
Separaram-nos silêncios hostis 
e maçãs envenenadas,
até teu olhar redimir-me 
no nosso novo primeiro encontro
quando nos juramos calados
nunca mais dizer adeus.
Enfim
nos encontramos no outono,
mas as secas folhas do passado
que já  tinhas antes da minha chegada
soterraram impiedosamente todos os meus sonhos.
Aíla Sampaio

sábado, 20 de janeiro de 2018




Ele tinha o cheiro esverdeado do sereno que molhava a paisagem quando ela pela primeira vez o abraçou e sentiu como se entrasse num bosque de madrugada. Os olhos dele, da cor da escuridão da noite, arrancaram a claridade da manhã de dentro dos dela e juntos amanheceram fora do tempo, dentro apenas deles mesmos. Não imaginaram que o vento passaria tão cedo para levar as cores e os cheiros, para enterrar tudo no tenebroso silêncio dos que só têm lugar no passado.


Aíla Sampaio

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Por enquanto






O sopro do vento arrastando as folhas
A chave enferrujada na porta
A jaqueta perdurada no silêncio.

Somente seu olhar
desenha a tela do agora
na desordem do meu espanto.


Tudo era.
Somente ela é

e
por enquanto.




Aíla Sampaio


sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

À espera de um eclipse




Quando ouvi tua voz pela primeira vez, uma explosão de silêncios me fez entender que nunca mais eu seria a mesma pessoa. Teu rosto veio depois, por detrás do tumulto das nuvens que anunciavam um temporal. Não, não foste como a primeira paixão, platônica e ansiosa, foste o pasmo essencial dos desesperados que correm no meio da tempestade sem saber aonde ir. 


Passei anos de janela aberta para as estrelas,  procurando as constelações em que te escondias. A cada encontro, um véu caía, e tua nova face refazia todos os percursos e me enredava num amor novo que, eu sabia, era o mesmo, só que travestido de realidade. Da realidade que revelava tuas imperfeições e te tirava do céu, mas te trazia à terra e nos aproximava.

À espera de um eclipse, dormi muitas vezes em braços que não eram os teus. Depois os esquecia e deixava o tempo reacender teu cheiro até tua voz me chamar pelo nome, o nome de estrela que me deste antes de me perderes entre os rascunhos dos teus poemas. 

Descobri, tantos anos depois dessas idas e vindas, que a matéria de que foi feito nosso amor não se desintegra. Repousa invisível, mas sempre desperta na carnação dos sentidos, mesmo quando, na atonia dos desesperados que correm na tempestade, não sabe exatamente aonde ir, mas vai. E sempre nos encontra à espera um do outro, como na primeira vez em que nos vimos. Como na primeira vez em que ouvi a tua voz e uma explosão de silêncios me ensurdeceu para o resto do mundo.




Aíla Sampaio  

Viver é dar a cara a tapa

           Sempre repito que o  grande entrave das relações é a falta de diálogo. O silêncio, a omissão de opiniões, sentimentos e dúvidas j...