quarta-feira, 27 de maio de 2020

TUA VERDADEIRA PÁTRIA




Eu roubaria o fogo dos deuses
e enfrentaria a fúria de Posseidon
para que tu  cruzasses o mar,

e, como os teus antepassados,

errasses o caminho das Índias
e pudesses chegar ao meu país.

Eu aprenderia as artimanhas de Hera

e a sabedoria de Atenas

para que o teu coração navegante 

se tornasse o meu porto seguro.



Eu roubaria os feitiços de Circe

e a paciência de Penélope,

para fazer-te ficar em meus braços

como quem volta para casa.

E te contaria todas as histórias

que Sherazade sabia

para encantar-te com o meu amor,

até que ele te levasse definitivamente

ao meu corpo

 tua verdadeira pátria.

Aìla Sampaio

PELA FRESTA




 Escrevo-te no escuro, como quem te vê pela fresta,
e desenha com a memória as cenas 
que a saudade vai buscar:
a mão no cavanhaque, 
o olhar castanho debruçado na varanda
e o jeito de combatente de guerra 
que escuta ainda vozes perdidas no tempo.

Ah, meu amor, deixa que eu sonhe, não acendas a luz. 
Quero dormir no teu colo como da última vez.
Quem sabe, no silêncio, o filme volte
e eu possa recompor em pensamento a nossa história.
Quem sabe novamente eu esqueça os brincos no criado-mudo
e o desejo entre os lençóis,
para que me encontres
em casa a qualquer hora.
Quem sabe, depois da minha partida,
ainda desatando os nós da despedida,
tu vejas meu olhar espalhado pela sala,
saindo sem vontade de ir embora.

Aíla Sampaio

À ESPERA DE UM ECLIPSE





         Quando ouvi tua voz pela primeira vez, uma explosão de silêncios me fez entender que nunca mais eu seria a mesma pessoa. Teu rosto veio depois, por detrás do tumulto das nuvens que anunciavam um temporal. Não, não foste como a primeira paixão, platônica e ansiosa, foste o pasmo essencial dos desesperados que correm no meio da tempestade sem saber aonde ir. 
            Passei anos de janela aberta para as estrelas,  procurando as constelações em que te escondias. A cada encontro, um véu caía, e tua nova face refazia todos os percursos e me enredava num amor novo que, eu sabia, era o mesmo, só que travestido de realidade. Da realidade que revelava tuas imperfeições e te tirava do céu, mas te trazia a terra e nos aproximava.
            À espera de um eclipse, dormi muitas vezes em braços que não eram os teus. Depois os esquecia e deixava o tempo reacender teu cheiro até tua voz me chamar pelo nome, o nome de estrela que me deste antes de me perderes entre os rascunhos dos teus poemas. 
            Descobri, tantos anos depois dessas idas e vindas, que a matéria de que foi feito o nosso amor não se desintegra. Repousa invisível, mas sempre desperta na carnação dos sentidos, mesmo quando, na atonia dos desesperados que correm na tempestade, não sabe exatamente aonde ir, mas vai. E sempre nos encontra à espera um do outro, como na primeira vez em que nos vimos. Como na primeira vez em que ouvi a tua voz e uma explosão de silêncios me ensurdeceu para o resto do mundo.

Aíla Sampaio

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

A cidade



A cidade de me esconde
entre ruas e esquinas,
perdida em mim
como suas avenidas
entre semáforos e arranha-céus.

Não sabe do mundo inteiro
que dorme
quando fecho os olhos
nem que suas ruas e casas
são apenas artérias de um corpo
onde a geografia
não dimensionou mapas.

A cidade me esconde
sob suas luzes
e não percebe
nos subterrâneos abismos
dos meus olhos,
um coração que pulsa
e é maior que ela. 



Aila Sampaio 

(De olhos entreabertos)

Retrato





Não tenho mais o teu rosto fixo na memória
como um retrato na moldura.
Acho que despencou parede abaixo,
estraçalhou-se no assoalho manchado
dos desejos não satisfeitos.
Restou o papel encardido de esperas
com a irreconhecível fisionomia
de um homem antigo
cujos olhos não mais se reconhecem.
São assim as terras por que pisamos inseguros
e das quais voltamos de mãos vazias:
terra apenas, sem flores nem água;
é assim o rosto que já foi amado
quando entra no território do esquecimento:
uma fisionomia borrada apenas, mais nada.

*
Aila Sampaio

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Para não te esqueceres



Para não te esqueceres
das verdades que me dizias
brincando,
há as ruas
que não mais atravessas comigo,
há as casas de muro baixo
nas mesmas esquinas
em que paravas pra roubar flores
e enfeitar os meus cabelos.

Talvez não te lembres
que sonhavas em me dar
um jardim,
mas eu não me esqueço
de que te prometi manhãs ensolaradas
e não cumpri.

O tempo ergueu muros altos
entre os nossos desejos e a realidade
e as nossas vontades se perderam
pelos caminhos
que trilhamos separados.
A nossa história,
entretanto,
ainda anda
por aquelas calçadas
e os jardins ainda florescem
sem notícias do futuro que
planejávamos.

Aíla Sampaio


Viver é dar a cara a tapa

           Sempre repito que o  grande entrave das relações é a falta de diálogo. O silêncio, a omissão de opiniões, sentimentos e dúvidas j...