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quinta-feira, 16 de agosto de 2007

ITINERÁRIO DA EMOÇÃO


Quem faz uma mulher
faz uma tarde
e seus vestígios poentes.
Faz a noite
e, num só momento,
faz igual
o que, por desigual,
é diferente.

O primeiro homem
é sempre a primeira estrela
a aparecer no céu
mas não é a única.
Novas noites acordam o delírio
de um dia à frente
se não se encontra no crepúsculo
o itinerário da emoção
que é etérea e não passa nunca

(do livro “Amálgama” (1991))

NÓS


um
e
outro

Nunca
dois

Juntos
por
um instante
eternamente

Definitivamente
distantes
depois

(Do livro "Amálgama (1991))

FRAGILIDADE*


Fragilidade *

A dor – cárcere privado.
Indivisível.
Efeito?
Defeito detectado
no peito (quem sabe) desarmado,
na carne, matéria exposta
susceptível ao tempo,
no coração que pára
-relógio sem conserto
nem motor de reserva.

Inventos os tempos levarão.
Fadarão ao passado
novidades imediatas.
O que será do homem
- vaso de porcelana –
se os jardins desmoronam
sob concretos?
Profetas, Deuses – mistério celeste –
crença absoluta no abstrato poder:
autores de espetáculos
onde, involuntários atores,
brindamos ao happy end.
?

Ergamos as taças,
enfeitemos o vaso.
Viver é representar
a transparência dos cristais
e a fragilidade de flores colhidas.

*Poema publicado na Revista Espiral No.3 – 1997 p.80

ETERNO

é somente o amor
Que não se realiza.

(Do livro “Amálgama” (1991))

MOLDURA


(Para Pedro, meu pai)

Calma
a lua se anuncia
se insinua
como se nua
fingisse mais recato;

Rápido se inicia
a cortante melodia
dos pássaros.

Uma estrela sorri
emoldurada de adeus...
é a tua presença
na ausência dos teus traços,
é a tua falta,
ocupando meus espaços

(Do livro “Desesperadamente Nua” (1987))

CUMPLICIDADE


Entre uma e outra mão
desata-se meu corpo
em oferenda.
Cada dia empresto-me
um pouco mais
ao meu riso
à minha dor
ao rosto que não é meu
e continua a denunciar
minhas reações.

Entre teto e paredes
meu quarto espera-me entrar
em cena
e estrear meu drama.
Meu cenário são
essas quatro paredes
que me fitam, me insultam
mas não me escutam;
nada resolvem ou dizem,
só me acusam, me assustam
e me expulsam
como se eu fosse apenas
mais uma boneca.

Tão pouco resta da carne
à sobra do que me consome;
nem corpo nem vício,
faço-me na cumplicidade dos olhos,
dos dias que me aterram
e redescobrem.

Morro secretamente
E sem explicação;
Encontro-me todos os dias
E, diante de mim,
Descubro que não me pertenço.

(Do livro “Desesperadamente Nua” (1987))

O SANGUE DA LIBERDADE

Quero sobretudo essa malícia
de trazer no corpo a marca das fêmeas,
seduzir reduzindo meus excessos
em assimetrias expressos
à flor da pele.

Quando for preciso,
enlouquecerei;
quebrarei as algemas
cedendo aos poucos
à tentação dos loucos
que injetam na veia
o sangue da liberdade que crêem.

Quero deter os alarmes
a tempo de aprender minha história
sem carícias a cicatrizar.
Quero além de tudo esse veneno
que denuncia minha maldade
castidade pra toda sedução,
pra solidão que eu decreto
dia a dia
adiando desejos.


(Do livro “Desesperadamente Nua” (1987))

Viver é dar a cara a tapa

           Sempre repito que o  grande entrave das relações é a falta de diálogo. O silêncio, a omissão de opiniões, sentimentos e dúvidas j...