
Nada de novo sob o sol. Se encontrasse tia Felícia, certamente ouviria essa frase hoje. Nunca vi alguém que gostasse tanto de repetir frases feitas. Para toda situação ela tinha uma para se sair ou fazer sua conclusão. Eu ficava impressionada com a sua capacidade de contextualizá-las e de sintetizar os acontecimentos em poucas palavras. Lembro-me de que ela odiava a palavra tia, dizia que era título pra velha rabugenta, que sublimava a solidão com os sobrinhos. E esse não era o seu caso, dizia jogando os cabelos.
Conversando, um dia, com o meu professor de português, sobre o seu repertório infinito de frases feitas e provérbios, fiquei sabendo que essa preferência é muito comum em pessoas incultas. Eu pensava que fosse o contrário.
Senti cair um pouco a minha admiração por aquela figura singular. Tia Felícia, de fato, pouca cultura e era uma frustrada por não ter se casado nem tido filhos. Os seus casinhos não a satisfaziam como ela dizia. Se é que ainda os tinha.
No final de semana seguinte à minha conversa com o tal professor, ela apareceu lá em casa, com uns óculos espalhafatosos, parecidos com os que a Jaqueline Kennedy usava. Certamente para cobrir as rugas ou as olheiras. Eu fiquei olhando o seu jeito de falar gesticulando, a sua pele áspera coberta de pó, o seu cabelo vermelho acaju, mastigado como uma manga recém chupada e pensei no quanto ela era infeliz. Não é fácil envelhecer sozinha, principalmente quando já se foi o centro de todas as atenções! Tive pena da Tia Felícia, lutando ainda pela aparência, e ódio por perder o meu referencial de cultura e elegância. Ela parecia meio bruxa com o rosto anguloso e o cabelo escorrido. Só faltava a vassoura. Saiu dizendo que gato escaldado tinha medo de água fria, como resposta à proposta que papai lhe fez de entregar os terrenos da praia para um corretor.
Sei que ela deve ter estranhado a minha distância, eu que me desfazia em mimos, estava ali, fingindo estudar para a prova de português e assitindo, sem querer, à queda do mito. Ela voltou da porta e beijou-me com afetação, expandindo seu aroma poison por toda a sala. Tive pena dela outra vez e a certeza de que era uma bruxa de verdade, pois, quando chegou de novo à porta, virou-se e disse que havia males que vinham para o bem. Fiquei pensando que ela havia lido meus pensamentos e que sabia que eu não mais a admirava e que isso era melhor para mim, pois não correria o risco de herdar sua sorte. Mas pode ser que ela tenha apenas se referido ao fato de eu estar estudando numa noite de sábado, em vez de sair com um namorado...
Essa foi a última vez que a vi. Ela foi encontrada morta, não muito tempo depois, toda vestida de vermelho, com os lábios pintados de carmim e uma bala no peito esquerdo. Papai falava em suícidio, mas a verdade é que ela não deixou carta nem recado. Suponho que deve ter tido os seus motivos para desistir de viver. Já perdera o bonde e as esperanças, como dizia Drummond. Fiquei olhando para o retrato que puseram no seu cartão-lembrança e percebi o quanto o tempo é cruel e implacável. Eu quase a vejo dizendo que a vida só é possível reinventada, para justificar o seu ato. Chego até a pensar que ela gostava de Cecília, me forçando a mudar de opinião a seu respeito.
Hoje, comemorando o nascimento do meu sétimo sobrinho, eu contemplo minha solidão e percebo que tia Felícia permanece em mim. Imperfeita, velha, injustiçada. Não a bela, que eu não conheci bem. Há dez anos ela se foi e, desde então, nada houve de novo sob o sol. Só eu, me descobrindo um falso brilhante.











