quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Carta ao tempo II



Foto: Wiron Batista (1991)



Ah, tempo tu não tens sido relativo pra mim. Andas escasso sempre e tens me tirado de onde quero demorar-me. Tens arrancado as minhas melhores páginas para que eu escreva novas, quando tudo o que eu queria era passar aqueles rascunhos a limpo. Tá certo, eu precisava aprender que tu não voltas, mas por que não me deixaste entender isso, na hora adequada, pra que eu pudesse "salvar" os arquivos antes que tu os deletasses? Não quero a vida no preto e branco da pressa, soterrada nas buzinas dos carros, na lista do supermercado, nas contas a pagar. Não sei viver no vermelho dos desencontros e das decepções, nas obrigações afiveladas na agenda. Quero demorar-me no cheiro de lavanda dos lençóis, nos poemas de Drummond e Adélia, no café da manhã com os meus filhos, no abraço do homem que amo. Quero ser dona das minhas horas, senhora de meus minutos e arbitrar sobre as minhas pausas.... Não quero desavenças contigo, por isso te peço: vamos nos entender! Deixa que os meus momentos me pertençam, que eu decida a velocidade dos ponteiros do meu relógio!!!

Aíla Sampaio 




segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Calmaria




Não quero mais a paixão, o arrebatamento da ansiedade, o desejo inadiável e urgente que atravessa avenidas sem olhar o trânsito ou pula muros sem medo de tiros. Não, não quero mais o que me inquieta a alma sem  trégua, o pensamento submisso às incertezas, mesmo com a embriaguez vadia dos momentos fugazes. Quero mais não. Prefiro a placidez das certezas, a cumplicidade dos olhares que escrevem as verdades mais silenciosas na alma. Prefiro o abraço desapressado, a serenidade da espera e a sobriedade dos gestos. Quero o amor com a sua calmaria de rio escorrendo em minhas veias. 




Aíla Sampaio




Saudades






Teu nome
salta-me dos olhos
e borra o papel.

Saudades não sabem escrever poemas.
 
 
 
Aíla Sampaio
 
 
 
 
 

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Teus lugares em mim



                                                                                             Foto: Anabela Guerreiro



Teus lugares em mim
 

são cavernas antigas
veredas onde hibernas
após descruzados olhares 
e duas taças de gim

são palavras e lágrimas
portas que se fecham
barco que naufraga
qual passado assombrando a noite
 e sacudindo as vagas.



Aíla Sampaio 


sábado, 13 de fevereiro de 2016

Coração em carne viva








Piso o asfalto molhado sem sapatos e saio a correr sobre as lembranças que o cheiro de chuva me traz. Sou outra vez a menina do meu pai, descabelada e austera, disfarçando as lágrimas em sorrisos para não perder a pose. Ah, como chorava atrás da porta aquela menina para que nem ela mesma visse! Como demorou a admitir sua alma azul, sua delicadeza de pássaro sem asas! Cobria com silêncios seu coração em carne viva, escondia as chagas das suas mãos em poemas, soterrava em solidão as fraturas expostas da alma. Mas algo dentro dela voava pelo infinito e tomava novas formas com a fome de vida que avançava em seus desejos, como uma luz que atravessa a escuridão. Ela continua pisando duro e olhando firme, mas aprendeu a dizer que ama quem ama, a esvaziar-se das mágoas, a perdoar e a perdoar-se, defendendo-se dos reveses da vida, mas não mais de si mesma.


Aíla Sampaio

Para sempre ou nunca mais


Recomeço


Viver é dar a cara a tapa

           Sempre repito que o  grande entrave das relações é a falta de diálogo. O silêncio, a omissão de opiniões, sentimentos e dúvidas j...