segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A poesia







A poesia é uma forma de inventar e desinventar amores. É bom vê-los começar e terminar sem lágrimas, despencando apenas das palavras que lhes deram a luz. A linguagem poética cria, recria e descria realidades sem tocar uma nesga de sua concreta (?) estrutura. Assim, encontros se fazem, despedidas latejam, dores adormecem e acordam no mesmo compasso. Gosto de fazer rastejar o que me põe a alma cansada. Gosto de fazer com as palavras o que não posso fazer com os olhos e as mãos. Mas nada, absolutamente nada, tem certidão de nascimento, nome ou endereço. Tudo nasce e desnasce sem compromisso com o que, quem ou quando. A poesia é minha deserção desse mundo que, por mais íntimo que tente se fazer, me é inevitavelmente estranho.

 Aíla Sampaio


Não se tira facilmente um grande amor do coração como quem arranca à faca a polpa de uma fruta. Não se arranca da memória, como quem tira água de um pote, a lembrança de quem escreveu seu nome em nossa alma. Às vezes se finge... é preciso fazer de conta pra ver se acontece, pra ver se o coração acredita e nos obedece!



Aíla Sampaio 







Essa saudade que às vezes me visita não é de nada já vivido. É de algo novo, mas tão antigo que nem tem rosto. É um desejo de me espalhar em mim, de me encontrar em mim, sem o sal do suor que derramei inutilmente, sem o doce que virou amargor em minha língua cansada de enganosos sabores. Essa saudade que sinto de mim vem do tempo perdido nos desvios e nos abismos de medos e angústias que me deram as falsas alegrias; é vontade de recuperar meu rosto e minha alma deixados no meio da travessia. Saudade é vontade de viver de novo o que já foi, o que poderia ter sido, o que não será... 


Aíla Sampaio


Recomeçar



Quero as portas abertas, o vento atravessando a casa, e o sol brilhando nas cerâmicas da varanda. Quero a rede armada e o lençol macio, o banho frio no calor e a cama arrumada para a sesta; quero o livro marcado e o copo d'água ao lado; um lápis com ponta e um papel em branco. Quero a TV pra não ligar e a janela entreaberta para os barulhos da rua. É assim que a vida se espalha pelo chão, de pés descalços e roupa lavada.... É assim que quero recomeçar a ser só e bastar-me. 


Aíla Sampaio

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

2014



2014 foi um ano de muitos desafios; de decepções, mas também de conquistas, viagens e verdades. Não passei à margem da vida, ao contrário, vi-me, em grande parte dos dias, no olho do furacão. Nem toda vez saí ilesa, mas saí e consegui me libertar das correntes. Vi máscaras cairem, castelos ruirem, muros de vidro e barro não resistirem às circunstâncias, mas vi também um chão sólido pra pisar e rostos sem véus a me acolherem com suas verdades. Foi um ano de cara lavada, dada à tapa tantas vezes; de lágrimas engolidas a seco, de alegrias silenciosas. 

Quero novos desafios no novo ano, mas quero menos densidade na textura do dia a dia, mais leveza nos passos, horizontes mais próximos, pra que eu possa alcançá-los. Quero um novo ano que não seja mais um a menos ou a mais; que me desgrude das incertezas, que me arme contra os medos, que mantenha afastado o que ficou pelo caminho e não me fez falta, e me restitua o que perdi e não posso viver sem. Quero um novo ano sem novidades que nada acrescentem e com as velhidades que me fazem bem.

Aila Sampaio




Desafio



Vencer a dor é o nossso maior desafio. A dor de não ter uma alma que caiba no corpo; de não poder deter o tempo para que a felicidade não acabe; de não conseguir que os que amamos nunca partam para sempre; de, muitas vezes, aprisionar a natureza para ajustar-nos aos outros. É a dor de existir com a consciência da efemeridade que nos leva ao desespero da posse, ao amor demasiado, a dilacerar-nos quando não podemos impedir o sofrimento dos que nos são caros. Somos impotentes diante do icognoscível, daí a alma em fratura exposta, o coração em carne viva a remendar-se somente com a certeza de que  Deus existe e sabe o sentido de tudo o que está posto inexoravelmente em nosso destino. Resta-nos, diante disso, duas alternativas: ou confiamos e seguimos distraídos da própria precariedade ou passamos a vida extraviados na dor do irremediável.

Aila Sampaio




segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

A menina e o mar...








Quero de volta a emoção de ver o mar pela primeira vez, de sentir seu cheiro salgado estarrecer meus olhos e pasmar meu corpo inteiro. Quero o primeiro mergulho medroso, o fascínio inédito de suas ondas e o pavor dos caixotes que enchiam os olhos de areia. Quero de volta o medo quase racional da criança (acostumada à correnteza dos riachos) dissipando-se aos poucos no prazer insaciável de olhar e sentir simplesmente, de viver a experiência do primeiro contato com o infinito. Quero aquela inocência inaudita, aquela vontade desbravadora de mundo que a idade aprisionava; aquelas incertezas que eu desenhava na areia, os castelos que eu não quis construir. Quero tudo o que foi embalado pra viagem, mas não pôde chegar ao destino!

Aíla Sampaio




Viver é dar a cara a tapa

           Sempre repito que o  grande entrave das relações é a falta de diálogo. O silêncio, a omissão de opiniões, sentimentos e dúvidas j...