Poemas, contos, imagens... palavras e silêncios. Mergulhos e naufrágios de AílaSampaio
sábado, 20 de janeiro de 2018
Ele tinha o cheiro esverdeado do sereno que molhava a paisagem quando ela pela primeira vez o abraçou e sentiu como se entrasse num bosque de madrugada. Os olhos dele, da cor da escuridão da noite, arrancaram a claridade da manhã de dentro dos dela e juntos amanheceram fora do tempo, dentro apenas deles mesmos. Não imaginaram que o vento passaria tão cedo para levar as cores e os cheiros, para enterrar tudo no tenebroso silêncio dos que só têm lugar no passado.
Aíla Sampaio
sexta-feira, 5 de janeiro de 2018
Por enquanto
O sopro do vento arrastando as folhas
A chave enferrujada na porta
A jaqueta perdurada no silêncio.
Somente seu olhar
desenha a tela do agora
na desordem do meu espanto.
Tudo era.
Somente ela é
e
por enquanto.
Aíla Sampaio
sexta-feira, 1 de dezembro de 2017
À espera de um eclipse
Quando
ouvi tua voz pela primeira vez, uma explosão de silêncios me fez
entender que nunca mais eu seria a mesma pessoa. Teu rosto veio
depois, por detrás do tumulto das nuvens que anunciavam um temporal.
Não, não foste como a primeira paixão, platônica e ansiosa, foste
o pasmo essencial dos desesperados que correm no meio da tempestade
sem saber aonde ir.
Passei
anos de janela aberta para as estrelas, procurando as
constelações em que te escondias. A cada encontro, um véu caía, e
tua nova face refazia todos os percursos e me enredava num amor novo
que, eu sabia, era o mesmo, só que travestido de realidade. Da
realidade que revelava tuas imperfeições e te tirava do céu, mas
te trazia à terra e nos aproximava.
À espera de um eclipse, dormi muitas vezes em braços que não eram os teus. Depois os esquecia e deixava o tempo reacender teu cheiro até tua voz me chamar pelo nome, o nome de estrela que me deste antes de me perderes entre os rascunhos dos teus poemas.
Descobri, tantos anos depois dessas idas e vindas, que a matéria de que foi feito nosso amor não se desintegra. Repousa invisível, mas sempre desperta na carnação dos sentidos, mesmo quando, na atonia dos desesperados que correm na tempestade, não sabe exatamente aonde ir, mas vai. E sempre nos encontra à espera um do outro, como na primeira vez em que nos vimos. Como na primeira vez em que ouvi a tua voz e uma explosão de silêncios me ensurdeceu para o resto do mundo.
Aíla
Sampaio
quarta-feira, 29 de novembro de 2017
Nunca me esqueci de ti
Faz tempo que não tenho notícias tuas. Na verdade, tenho evitado
saber, porque não quero ter certeza de que desististe de nós. Nem quero
que saibas ou que saibam que ainda me importo. Ando ocupada em fazer de
conta que o passado está morto, mas continuo a carregá-lo, a escondê-lo
por detrás das portas que nunca baterei. Sigo como se nada disso se
passasse comigo, como se não fosse minha a história que vivo.
Não sei se o que sinto é saudade. Se essa ausência que me abraça é tua
ou da certeza que me davas de que eu nunca mais seria sozinha. Fico a
imaginar onde deixamos a necessidade de ouvir a voz do outro todos os
dias, desde quando se perdeu aquela intimidade que nos permitia dizer o
que pensávamos e sentíamos a qualquer hora. Agora, não sei mais o que
acontece quando acordas, com quem conversas ou o que te falam, porque o
silêncio construiu um muro de incertezas entre nós. E como estranhos,
não temos o direito a perguntas ou questionamentos, nada podemos cobrar
sobre o que o vento traz aos nossos ouvidos e fere e que, por isso,
preferiríamos não ter escutado.
Faz tempo que nos despedimos pela última vez, e eu sabia mesmo que não
voltaria a ver-te, mas é como se aquele adeus se arrastasse no tempo e
não se consumasse de forma definitiva. Como uma hemorragia que não
estanca e sabemos que não suportaremos até sempre.
Lembro que nos
prometemos nunca nos perdermos, nunca deixar a distância crescer mais,
que fazíamos planos para o futuro como se ele fosse existir; não passava
pela minha cabeça que ele pudesse ser um abismo de lembranças. Esqueci
que o mundo gira e as peças do tabuleiro mudam, que os sentimentos, na
nossa idade, podem ser soterrados pela razão. Hoje, acordei com a tua
falta me habitando, com teu sorriso atravessando meus olhos como no
primeiro dia em que nos vimos... que posso, então, dizer-te, senão que
nunca, nunca me esqueci de ti?
Aíla Sampaio
quinta-feira, 9 de novembro de 2017
Dentro dos livros
Quando
ele perdeu o cheiro de chuva
que
me acordava nos dias quentes,
escondi-me
dentro dos livros
transformada
em palavra escrita.
A
vida,
como
uma frase evasiva,
fez
os dias
terminarem
sempre numa página arrancada
para
que nunca se lesse
a
paisagem dos meus pensamentos
recentes
ora
incertos como arbitrárias vírgulas
ora
suspensos por longas reticências...
Quando
ele perdeu o cheiro de chuva
que
arrancava a poesia dos meus desertos
nos
transformamos apenas
em
personagens
de livros diferentes.
Aíla Sampaio
segunda-feira, 6 de novembro de 2017
De sapatos novos
Numa
esquina qualquer de abril,
ela
deixou a atenção que ele não lhe deu,
os
telefonemas que não retornou,
e
a vontade inútil de vê-lo com vontade dela...
Largou
a caixa vazia nos desvãos das horas
perdidas
e irrecuperáveis.
"O
que não foi é porque não deveria ter sido", resignou-se.
Viu que já era maio, com suas ruas claras
e
seu cheiro de flores.
Sem
vontades inúteis, olhou a paisagem de festa
e
viu as respostas do tempo em seus sapatos novos…
Ficou
alguns minutos em silêncio,
depois
jurou que teria cuidado
para não os
perder na
escadaria errada mais uma vez!
Aíla Sampaio
Via de mão única
Habituei-me
a ti como às ruas por onde passo automaticamente.
A mesma paisagem
após o café,
a sempre mesma palavra a Deus por mais um dia,
a sempre mesma palavra a Deus por mais um dia,
a mesma
vontade de outro olhar que esvaziasse a mesmice que viramos.
Teu corpo,
via de mão única do meu percurso diário,
escorregou do meu
desejo...
fez-se apenas um quadro na parede da sala;
um móvel
que (não) posso trocar de lugar.
Aíla Sampaio
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