segunda-feira, 9 de novembro de 2015

É preciso matar e morrer pra continuar vivendo

Nunca mais te direi o que me entristece nem os motivos da minha insônia. Nunca mais ouvirás o meu chamado nem saberás do quanto andei triste, bordando as tardes com lágrimas que nem o sol conseguiu secar. 

Deixei a noite  atravessar os meus dias numa impertinência voraz de pássaros sonâmbulos, para que a minha boca mastigasse o  teu nome. Nunca mais o pronunciei desde  o tratado de paz silencioso que usamos para nos proteger da dor. 

Evitamos o confronto das nossas razões, mas a memória, fustigada pela falta que fazemos um ao outro, sempre busca uma faca para cortar as flores que plantamos em nossas lembranças. Ninguém se separa de quem ama impunemente.

É preciso desconstruir as imagens, rasgar as alegrias congeladas nos ideais que insistem, reavivar as farpas, desalgemar-se das ilusões e dormir sobre as mágoas redivivas pra caminhar rumo ao esquecimento. É preciso matar e morrer pra continuar vivendo.

Aila Sampaio

Tempo de estio







Tempo de estio: 
pedras no caminho 
e coração vazio.

Aíla Sampaio 


 

quinta-feira, 8 de outubro de 2015


Eu e o poeta, certa noite em Copacabana, trocando confidências...





O que eu tinha a dizer perdeu a importância. Só o silêncio comporta a integridade das palavras com que não consigo traduzir o que sinto. Nasci com o fuso horário defeituoso: estive sempre me antecipando ou atrasando, num vai-e-vem de cedos e tardes que nunca me permitiu a serenidade do tempo certo.

De repente o vazio, essa tempestade oca, que arrasta telhados inexistentes e apavora os pássaros que cantam para me acordar... Não adianta contabilizar os anos vividos para saber a minha resistência. As idas e vindas de humor, amor, desamor e amarguras não têm medida possível nem registro além dos vincos na pela e na alma.

Escondo-nos atrás de lentes e sorrisos para conjugar o verbo 'passar' sem lágrimas. E tento ser feliz mesmo sem saber o que me resta.

Aíla Sampaio



quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Sob o signo do efêmero






 Tudo é nosso sempre temporariamente. Já nascemos sob o signo do efêmero e da imprevisibilidade. É a vida, que, como dizia o poeta Júlio Salusse, é "manso lago azul, algumas vezes mar fremente". Que mistério a faz tão mágica e, ao mesmo tempo, tão trágica?

           Como numa gangorra, ora estamos no chão, ora no alto. Do riso faz-se o pranto, como versejou Vinícius; das lágrimas formam-se rios de felicidade. Onde a lógica para tanta mudança de humor e estações? Onde a explicação para as tão enigmáticas estradas que nunca sabemos aonde vão dar? Caminhamos imaginando um destino que só se desenha no limiar do agora.

           Viver será sempre costurar auroras a crepúsculos, mas manter as pontas soltas; será sempre um alinhavo cuja linha pode romper-se a qualquer movimento. Nada dura pra sempre e, se não podemos deter o que há de bom, também teremos prazo para o fim das nossas tragédias íntimas. Se a certeza da fugacidade nos retém às perdas, também dá trégua às nossas dores.
          O grande aprendizado é equilibrar-se nas incertezas; fazer contas que não fecham quando almejamos resultados exatos sem o desespero de ficar, de vez em quando, no vermelho.  Somos tão perecíveis quanto a fruta que espera a dentada (ou o apodrecimento) na fruteira. Temos urgências e desesperos atravancados em longas filas de espera. Como sobreviver a tanto dilaceramento?

          Entendendo que o tempo é HOJE sempre! Vivendo as agruras e as benesses com a mesma coragem e humildade, guardando no coração somente o que foi bom. Não há fórmulas. Há posturas diante dos acontecimentos, aprendizados com a experiência. Só ela nos pode dar discernimento para gritar ou calar; para declarar estado de emergência ou sucumbir de uma vez. Não há livro de autoajuda que nos cure a dor de ter uma alma que não cabe no próprio corpo! Não há existência pacífica... Somente a aceitação da própria condição pode nos impulsionar às mudanças, pois não se cura um mal se ele não for diagnosticado.

          O que fazer, então, nessa fila interminável de esperas que é a vida? Não há outra forma senão viver... um dia de cada vez, de olhos abertos para a luz e sem expectativas! Sem lamentar o trem perdido, o amor que se foi, a oportunidade que passou, porque todas as coisas têm o seu tempo exato para acontecer e o seu prazo de permanência. O que verdadeiramente nos pertence nunca sai definitivamente da nossa história. Pode até ir, mas sempre dará um jeito de voltar.  E, se não voltar, será o melhor que nos poderia ter acontecido. 

Aíla Sampaio


quinta-feira, 9 de abril de 2015

De repente


De repente o que era tão importante já não é; o que fazia diferença já não faz; o que movia os ponteiros do nosso relógio já não os move, como se o tempo tivesse estancado tudo o que foi para não mais ser. De repente a vida acrescenta ou elimina personagens da nossa história, alternando posições, remanejando sentimentos, ora nos contrariando, ora nos satisfazendo, mas sempre movimentando a engrenagem da vida e guardando as explicações...

Aíla Sampaio



quarta-feira, 1 de abril de 2015

Finalmente





Eu te esqueci descendo as escadas,
retirando o  pó dos móveis,
olhando no espelho
os sulcos deixados pelo pranto em minha pele.
Da presença à sombra
demoraste muitas  taças de vinho
e  amargurosos poemas.
Foram muitas rezas para desfazer-se o quebranto,
e abrirem-se as fissuras
na carne do tempo.
Finalmente quebraram-se as algemas
e viraste lembrança desbotada num porta-retrato.
Finalmente, veio a vontade assassina de soterrar teu nome
entre os indigentes do meu passado.

Aíla Sampaio

Viver é dar a cara a tapa

           Sempre repito que o  grande entrave das relações é a falta de diálogo. O silêncio, a omissão de opiniões, sentimentos e dúvidas j...