sábado, 28 de abril de 2018

Desde os contos de fadas


Eu te esperava desde os contos de fadas,
quando a esperança galopava um cavalo branco
e os príncipes existiam;
desde um imemorável maio
quando, em pranto, vi a luz do sol
esgarçar o dia pela primeira vez.
Desde a água benta na pia batismal,
eu te espero sorver o sal da vida
que nos predestinou no livro de Jó.
Sob as chuvas ou contando estrelas,
cresci para ti, as mãos cheias de ardis
para enredar-te em meus braços,
nunca mais ser só.
Separaram-nos silêncios hostis 
e maçãs envenenadas,
até teu olhar redimir-me 
no nosso novo primeiro encontro
quando nos juramos calados
nunca mais dizer adeus.
Enfim
nos encontramos no outono,
mas as secas folhas do passado
que já  tinhas antes da minha chegada
soterraram impiedosamente todos os meus sonhos.
Aíla Sampaio

sábado, 20 de janeiro de 2018




Ele tinha o cheiro esverdeado do sereno que molhava a paisagem quando ela pela primeira vez o abraçou e sentiu como se entrasse num bosque de madrugada. Os olhos dele, da cor da escuridão da noite, arrancaram a claridade da manhã de dentro dos dela e juntos amanheceram fora do tempo, dentro apenas deles mesmos. Não imaginaram que o vento passaria tão cedo para levar as cores e os cheiros, para enterrar tudo no tenebroso silêncio dos que só têm lugar no passado.


Aíla Sampaio

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Por enquanto






O sopro do vento arrastando as folhas
A chave enferrujada na porta
A jaqueta perdurada no silêncio.

Somente seu olhar
desenha a tela do agora
na desordem do meu espanto.


Tudo era.
Somente ela é

e
por enquanto.




Aíla Sampaio


sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

À espera de um eclipse




Quando ouvi tua voz pela primeira vez, uma explosão de silêncios me fez entender que nunca mais eu seria a mesma pessoa. Teu rosto veio depois, por detrás do tumulto das nuvens que anunciavam um temporal. Não, não foste como a primeira paixão, platônica e ansiosa, foste o pasmo essencial dos desesperados que correm no meio da tempestade sem saber aonde ir. 


Passei anos de janela aberta para as estrelas,  procurando as constelações em que te escondias. A cada encontro, um véu caía, e tua nova face refazia todos os percursos e me enredava num amor novo que, eu sabia, era o mesmo, só que travestido de realidade. Da realidade que revelava tuas imperfeições e te tirava do céu, mas te trazia à terra e nos aproximava.

À espera de um eclipse, dormi muitas vezes em braços que não eram os teus. Depois os esquecia e deixava o tempo reacender teu cheiro até tua voz me chamar pelo nome, o nome de estrela que me deste antes de me perderes entre os rascunhos dos teus poemas. 

Descobri, tantos anos depois dessas idas e vindas, que a matéria de que foi feito nosso amor não se desintegra. Repousa invisível, mas sempre desperta na carnação dos sentidos, mesmo quando, na atonia dos desesperados que correm na tempestade, não sabe exatamente aonde ir, mas vai. E sempre nos encontra à espera um do outro, como na primeira vez em que nos vimos. Como na primeira vez em que ouvi a tua voz e uma explosão de silêncios me ensurdeceu para o resto do mundo.




Aíla Sampaio  

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Nunca me esqueci de ti


Faz tempo que não tenho notícias tuas. Na verdade, tenho evitado saber, porque não quero ter certeza de que desististe de nós. Nem quero que saibas ou que saibam que ainda me importo. Ando ocupada em fazer de conta que o passado está morto, mas continuo a carregá-lo, a escondê-lo por detrás das portas que nunca baterei. Sigo como se nada disso se passasse comigo, como se não fosse minha a história que vivo.

Não sei se o que sinto é saudade. Se essa ausência que me abraça é tua ou da certeza que me davas de que eu nunca mais seria sozinha. Fico a imaginar onde deixamos a necessidade de ouvir a voz do outro todos os dias, desde quando se perdeu aquela intimidade que nos permitia dizer o que pensávamos e sentíamos a qualquer hora. Agora, não sei mais o que acontece quando acordas, com quem conversas ou o que te falam, porque o silêncio construiu um muro de incertezas entre nós. E como estranhos, não temos o direito a perguntas ou questionamentos, nada podemos cobrar sobre o que o vento traz aos nossos ouvidos e fere e que, por isso, preferiríamos não ter escutado.

Faz tempo que nos despedimos pela última vez, e eu sabia mesmo que não voltaria a ver-te, mas é como se aquele adeus se arrastasse no tempo e não se consumasse de forma definitiva. Como uma hemorragia que não estanca e sabemos que não suportaremos até sempre.

Lembro que nos prometemos nunca nos perdermos, nunca deixar a distância crescer mais, que fazíamos planos para o futuro como se ele fosse existir; não passava pela minha cabeça que ele pudesse ser um abismo de lembranças. Esqueci que o mundo gira e as peças do tabuleiro mudam, que os sentimentos, na nossa idade, podem ser soterrados pela razão. Hoje, acordei com a tua falta me habitando, com teu sorriso atravessando meus olhos como no primeiro dia em que nos vimos... que posso, então, dizer-te, senão que nunca, nunca me esqueci de ti?


Aíla Sampaio

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Dentro dos livros


Quando ele perdeu o cheiro de chuva

que me acordava nos dias quentes,

escondi-me dentro dos livros

transformada em palavra escrita. 
 

A vida,

como uma frase evasiva,

fez os dias 
 
terminarem sempre numa página arrancada

para que nunca se lesse

a paisagem dos meus pensamentos

recentes

ora incertos como arbitrárias vírgulas

ora suspensos por longas reticências...



Quando ele perdeu o cheiro de chuva

que arrancava a poesia dos meus desertos

nos transformamos apenas em

personagens de livros diferentes.



Aíla Sampaio


 

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

De sapatos novos




Numa esquina qualquer de abril, 
 
ela deixou a atenção que ele não lhe deu, 
 
os telefonemas que não retornou, 
 
e a vontade inútil de vê-lo com vontade dela... 
 
Largou a caixa vazia nos desvãos das horas 
perdidas e irrecuperáveis. 
 
"O que não foi é porque não deveria ter sido", resignou-se.

Viu que já era maio, com suas ruas claras 
 
e seu cheiro de flores. 
 
Sem vontades inúteis, olhou a paisagem de festa
 
e viu as respostas do tempo em seus sapatos novos…
Ficou alguns minutos em silêncio, 
 
depois jurou que teria cuidado 
 
para não os perder na escadaria errada mais uma vez!




Aíla Sampaio 
 

Viver é dar a cara a tapa

           Sempre repito que o  grande entrave das relações é a falta de diálogo. O silêncio, a omissão de opiniões, sentimentos e dúvidas j...