quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Dentro dos livros


Quando ele perdeu o cheiro de chuva

que me acordava nos dias quentes,

escondi-me dentro dos livros

transformada em palavra escrita. 
 

A vida,

como uma frase evasiva,

fez os dias 
 
terminarem sempre numa página arrancada

para que nunca se lesse

a paisagem dos meus pensamentos

recentes

ora incertos como arbitrárias vírgulas

ora suspensos por longas reticências...



Quando ele perdeu o cheiro de chuva

que arrancava a poesia dos meus desertos

nos transformamos apenas em

personagens de livros diferentes.



Aíla Sampaio


 

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

De sapatos novos




Numa esquina qualquer de abril, 
 
ela deixou a atenção que ele não lhe deu, 
 
os telefonemas que não retornou, 
 
e a vontade inútil de vê-lo com vontade dela... 
 
Largou a caixa vazia nos desvãos das horas 
perdidas e irrecuperáveis. 
 
"O que não foi é porque não deveria ter sido", resignou-se.

Viu que já era maio, com suas ruas claras 
 
e seu cheiro de flores. 
 
Sem vontades inúteis, olhou a paisagem de festa
 
e viu as respostas do tempo em seus sapatos novos…
Ficou alguns minutos em silêncio, 
 
depois jurou que teria cuidado 
 
para não os perder na escadaria errada mais uma vez!




Aíla Sampaio 
 

Via de mão única










Habituei-me a ti como às ruas por onde passo automaticamente. 
A mesma paisagem após o café,
a sempre mesma palavra a Deus por mais um dia, 
a mesma vontade de outro olhar que esvaziasse a mesmice que viramos. 

Teu corpo, via de mão única do meu percurso diário, 
escorregou do meu desejo... 
fez-se apenas um quadro na parede da sala; 
um móvel que (não) posso trocar de lugar. 



Aíla Sampaio

Meia-volta








Eu sei que te prometi sorrisos ao meio-dia 
e tardes de domingo menos monótonas. 
Bem que eu tentei cumprir, 
mas a vida deu meia-volta em nossas vontades, 
e as nossas alegrias 
nunca mais coincidiram.
 


Aíla Sampaio

Tu sabes





Tu sabes a ordem das estrelas nas constelações 
e o movimento dos ventos .
Sabes tudo das estações e dos climas amenos 
que ancoram nessas paisagens,
decifras esfinges, acalmas vulcões,
mas não és capaz de ler nos meus olhos
as marés cheias e os tornados 
que se fazem quando chegas e logo te vais... 



Aila Sampaio

sábado, 6 de maio de 2017

um poema inconcluso



Tu és palavra que se pronuncia no escuro,
um nome por detrás dos muros da memória,
aprisionando o presente no passado.
E eu,
rio em cheia a procurar um córrego
na claridade do dia,
um poema inconcluso
na solidão de um livro nunca lido.


Aíla Sampaio


como um verso



Ainda sinto teu gosto de pêssego, 
tua manhã nascendo, 
tuas ondas quebrando em minhas areias. 

Ainda sobrevoas o meu sono 
e habitas as minhas palavras e os meus silêncios, 
como um verso que quer, 
de qualquer jeito,
 ser escrito!




Aíla Sampaio 



Viver é dar a cara a tapa

           Sempre repito que o  grande entrave das relações é a falta de diálogo. O silêncio, a omissão de opiniões, sentimentos e dúvidas j...