segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Via de mão única










Habituei-me a ti como às ruas por onde passo automaticamente. 
A mesma paisagem após o café,
a sempre mesma palavra a Deus por mais um dia, 
a mesma vontade de outro olhar que esvaziasse a mesmice que viramos. 

Teu corpo, via de mão única do meu percurso diário, 
escorregou do meu desejo... 
fez-se apenas um quadro na parede da sala; 
um móvel que (não) posso trocar de lugar. 



Aíla Sampaio

Meia-volta








Eu sei que te prometi sorrisos ao meio-dia 
e tardes de domingo menos monótonas. 
Bem que eu tentei cumprir, 
mas a vida deu meia-volta em nossas vontades, 
e as nossas alegrias 
nunca mais coincidiram.
 


Aíla Sampaio

Tu sabes





Tu sabes a ordem das estrelas nas constelações 
e o movimento dos ventos .
Sabes tudo das estações e dos climas amenos 
que ancoram nessas paisagens,
decifras esfinges, acalmas vulcões,
mas não és capaz de ler nos meus olhos
as marés cheias e os tornados 
que se fazem quando chegas e logo te vais... 



Aila Sampaio

sábado, 6 de maio de 2017

um poema inconcluso



Tu és palavra que se pronuncia no escuro,
um nome por detrás dos muros da memória,
aprisionando o presente no passado.
E eu,
rio em cheia a procurar um córrego
na claridade do dia,
um poema inconcluso
na solidão de um livro nunca lido.


Aíla Sampaio


como um verso



Ainda sinto teu gosto de pêssego, 
tua manhã nascendo, 
tuas ondas quebrando em minhas areias. 

Ainda sobrevoas o meu sono 
e habitas as minhas palavras e os meus silêncios, 
como um verso que quer, 
de qualquer jeito,
 ser escrito!




Aíla Sampaio 



domingo, 12 de fevereiro de 2017

ORAÇÃO


Livra-me, Senhor, dessas horas de saudade
dessas exasperadas horas
que desafiam os ponteiros
e se eternizam como se fossem anos.
Tira-me essa sofreguidão do olhar
que se demora na lembrança
do que devo esquecer
e não permita que minhas inseguranças
me impeçam de tentar
o que posso conseguir .
Que o desengano não tome conta
nunca da minha alma
quando não for possível
atingir um objetivo
e que eu nunca use armas para mudar
a realidade que não seja a palavra justa.
Que os 'apesares' da vida não sejam jamais justificativas
para desistir de um sonho,
e que as pessoas que cruzarem o meu caminho
compreendam que não sou perfeita,
mas estou em busca de aperfeiçoamento.
Que eu só guarde dentro de mim
o que for bom
e nunca me arrependa do que fiz
ou deixei de fazer,
pois o que me motivou foi sempre
a verdade do meu coração. 
 
 
Aíla Sampaio 
 
(Foto na Catedral de Sal - Zipakirá - Colômbia, 2016)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Talvez



 


Ela sempre se apressa em mudar o rumo que os pensamentos tomam quando atravessa a rua e sente a tarde cair sobre os flamboyants floridos. Há qualquer punhal escondido sob o tapete de pétalas vermelhas que a faz sangrar; há lembranças ainda úmidas da última primavera em que se sentiu dona de um jardim. Talvez devesse jogar as recordações na primeira chuva, para que o passado escorresse pelas quatro águas de sua memória. Talvez devesse nunca esquecer que alguns amores já nascem com a data da extremaunção; deixá-los vingar é permitir um crime contra a própria felicidade.

Aíla Sampaio

Viver é dar a cara a tapa

           Sempre repito que o  grande entrave das relações é a falta de diálogo. O silêncio, a omissão de opiniões, sentimentos e dúvidas j...