segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Recomeçar



Quero as portas abertas, o vento atravessando a casa, e o sol brilhando nas cerâmicas da varanda. Quero a rede armada e o lençol macio, o banho frio no calor e a cama arrumada para a sesta; quero o livro marcado e o copo d'água ao lado; um lápis com ponta e um papel em branco. Quero a TV pra não ligar e a janela entreaberta para os barulhos da rua. É assim que a vida se espalha pelo chão, de pés descalços e roupa lavada.... É assim que quero recomeçar a ser só e bastar-me. 


Aíla Sampaio

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

2014



2014 foi um ano de muitos desafios; de decepções, mas também de conquistas, viagens e verdades. Não passei à margem da vida, ao contrário, vi-me, em grande parte dos dias, no olho do furacão. Nem toda vez saí ilesa, mas saí e consegui me libertar das correntes. Vi máscaras cairem, castelos ruirem, muros de vidro e barro não resistirem às circunstâncias, mas vi também um chão sólido pra pisar e rostos sem véus a me acolherem com suas verdades. Foi um ano de cara lavada, dada à tapa tantas vezes; de lágrimas engolidas a seco, de alegrias silenciosas. 

Quero novos desafios no novo ano, mas quero menos densidade na textura do dia a dia, mais leveza nos passos, horizontes mais próximos, pra que eu possa alcançá-los. Quero um novo ano que não seja mais um a menos ou a mais; que me desgrude das incertezas, que me arme contra os medos, que mantenha afastado o que ficou pelo caminho e não me fez falta, e me restitua o que perdi e não posso viver sem. Quero um novo ano sem novidades que nada acrescentem e com as velhidades que me fazem bem.

Aila Sampaio




Desafio



Vencer a dor é o nossso maior desafio. A dor de não ter uma alma que caiba no corpo; de não poder deter o tempo para que a felicidade não acabe; de não conseguir que os que amamos nunca partam para sempre; de, muitas vezes, aprisionar a natureza para ajustar-nos aos outros. É a dor de existir com a consciência da efemeridade que nos leva ao desespero da posse, ao amor demasiado, a dilacerar-nos quando não podemos impedir o sofrimento dos que nos são caros. Somos impotentes diante do icognoscível, daí a alma em fratura exposta, o coração em carne viva a remendar-se somente com a certeza de que  Deus existe e sabe o sentido de tudo o que está posto inexoravelmente em nosso destino. Resta-nos, diante disso, duas alternativas: ou confiamos e seguimos distraídos da própria precariedade ou passamos a vida extraviados na dor do irremediável.

Aila Sampaio




segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

A menina e o mar...








Quero de volta a emoção de ver o mar pela primeira vez, de sentir seu cheiro salgado estarrecer meus olhos e pasmar meu corpo inteiro. Quero o primeiro mergulho medroso, o fascínio inédito de suas ondas e o pavor dos caixotes que enchiam os olhos de areia. Quero de volta o medo quase racional da criança (acostumada à correnteza dos riachos) dissipando-se aos poucos no prazer insaciável de olhar e sentir simplesmente, de viver a experiência do primeiro contato com o infinito. Quero aquela inocência inaudita, aquela vontade desbravadora de mundo que a idade aprisionava; aquelas incertezas que eu desenhava na areia, os castelos que eu não quis construir. Quero tudo o que foi embalado pra viagem, mas não pôde chegar ao destino!

Aíla Sampaio




quarta-feira, 16 de julho de 2014

Do mar que eu via em teus olhos restou apenas o naufrágio...

Aíla Sampaio




O tempo nos obriga a ir e a deixar ir... as pessoas passam, nós passamos. O que fica é a marca do que fomos, a marca do que foram os que amamos e, por alguma razão, tiveram que partir. É, Quintana, "quando chove, tudo faz tanto tempo"... saudades se desenterram e a poesia invade.

Aíla Sampaio

Sinto falta...






Sinto falta das sombras fartas sobre os quintais bem varridos da minha infância; do cheiro dos livros novos que marcavam o início de um novo ano; do perfume de alecrim que entrava pela janela do quarto, sempre aberta para a vida; da importância que tinha cada coisa nova que chegava. Sinto falta de não ter medo do escuro, de espreitar os relâmpagos nos dias em que chuva tamborilava nos telhados uma canção de paz. Sinto falta da voz do meu avô dentro das noites em que eu me escondia de mim mesma, encandeada pelos pirilampos, ensurdecida pelas cantigas dos grilos que ninavam o meu sono. Sinto falta da menina que eu quase fui, da criança que se fez sozinha no silêncio dos invernos, amedrontada pelas incertezas arrefecidas no cheiro de querosene das lamparinas. Não havia estrada. Eu mesma abri veredas com a foice do desejo e a avidez dos olhos que morriam de vontade de chegar aonde estou. Hoje, depois da travessia de todos os desertos, eu só queria encontrar o caminho de volta...

Aíla Sampaio 



Viver é dar a cara a tapa

           Sempre repito que o  grande entrave das relações é a falta de diálogo. O silêncio, a omissão de opiniões, sentimentos e dúvidas j...