Suportar tua ausência e a certeza de que nunca mais baterás à porta é fechar as janelas para o verde e deixar morrerem todas flores em botão; é esperar a vida passar lentamente como quem ordenha ovelhas e escuta música clássica; é suportar o frio no limiar dos invernos mais densos, e receber a morte, de braços abertos, bem antes do tempo.
Poemas, contos, imagens... palavras e silêncios. Mergulhos e naufrágios de AílaSampaio
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Desvarios de maio
Desse olhar esgarçado sobre o poente
dessa lamúria que é o vento antes da chuva
fiz a tarde com seus desvarios de maio.
Não fosse hoje um domingo qualquer
eu teria motivos para não ler
e veria TV, bandeira branca a meio-palmo
e mansidão para seguir as procissões de Maria.
Mas não é assim o meu desenho
tão fácil de distinguir as cores e as linhas
rascunhadas. Surpreendem-me
vontades de sesta, sono profundo ao meio-dia
e saudades que não posso mais matar.
Tanta abstinência, tantas orações
e o coração não sara...
continua a sangrar ao menor esforço
e a me matar aos poucos todos os dias.
sexta-feira, 8 de abril de 2011
Todos os complementos
Não quero amor a conta gota
nem felicidade emprestada.
Quero a transitividade do verbo amar
com todos os seus complementos.
Naquele dia
Eu queria que tivesse sido mentira
aquela despedida.
Meus olhos borrados
o salto enganchando no acelerador
e o Fagner com Deslizes na voz
pisando a minha dor.
Eu queria ter sumido no mundo
com a minha ferida
ou, se não podia morrer,
ter ficado contigo
ter ficado contigo
pelo resto da vida
naquele dia.
naquele dia.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Unguento
Amar é ficar pelo avesso
corpo descarnado ao léo
suportando o vento.
Ser em carne viva,
e amar quem se arma
com punhal ou palavra
é vício de sofrimento,
não é vida.
Amor deve ser unguento
não ferida.
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