quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Dança de enganos e as fissuras da memória

 



Aíla Sampaio

(Escritora e Profa. Dra. da Seduc e da Unifor)

 

 

A trilogia O Lado Mais Sombrio, de Milton Hatoum, se completa agora com a publicação do romance Dança de enganos (2025), pela Companhia das Letras, trazendo à tona a ditadura militar, o exílio e a fragmentação das relações familiares. Esse último tema é recorrente em obras suas anteriores, com o atravessamento de questões nevrálgicas como rivalidade, rejeição e incesto.

A distância cronológica entre a publicação dos três volumes - A hora da espera (2017)Pontos de fuga (2019) e Dança de enganos (2025) -  comprova o excessivo cuidado do escritor com suas produções, que, além de demasiadamente criteriosas nas pesquisas e inventivas no âmbito da criação, são verdadeiras artesanias de palavras. Com efeito, seu trabalho de linguagem é impecável e nos remete imediatamente às melhores obras  de Machado de Assis e Graciliano Ramos. Distância maior se impõe entre os dois últimos volumes, separados por uma pandemia e tempos sombrios de retorno ao fascismo e às guerras.

O narrador dos dois primeiros volumes é o protagonista, Martim, que reconstrói sua trajetória marcada pela ausência do pai, depois, pelo desaparecimento da mãe, pela repressão política e pela instabilidade afetiva. Os relatos evidenciam a inconsistência da lembrança e a dificuldade de compreender plenamente o passado, num tom confessional e reflexivo, em que os tempos se entrelaçam, revelando lacunas, silêncios e incertezas.

contexto histórico - a ditadura militar brasileira (1964-1985) - não é somente um pano de fundo, atravessa a vida das personagens, interferindo em suas escolhas, sentimentos e destinos. A censura, a perseguição política, o exílio e a vigilância constante afetam as subjetividades e produzem rupturas familiares e emocionais. Hatoum articula, assim, o drama individual ao coletivo, revelando como a história nacional impacta na vida privada.

As personagens são delineadas pela incompletude e pela instabilidade. Martim cresce à sombra de um pai dominador, cuja ausência e mistério alimentam conflitos internos e uma busca incessante por pertencimento. As figuras femininas, como a mãe, Lina, a avó, Ondina, e a namorada, Dinah, são presenças ausentes e complexas, que expressam tanto acolhimento quanto fragilidade. Não há personagens idealizadas: todas carregam contradições, medos e frustrações.

Nesse sentido, os enredos apresentam a figura do herói problemático, categoria cunhada pelo crítico maxista George Lukács, ao falar na ascensão da burguesia no séc. XX, distante do modelo clássico do herói. Martim é um sujeito em permanente estado de dúvida, hesitante, introspectivo e contaminado pelo sentimento de inadequação. Sua jornada é mais interior, caracterizada pela tentativa de compreender o que passou, reconstruir sua identidade e lidar com as perdas, sobretudo com a recusa da mãe de que ele more com ela e o novo parceiro, e, depois, seu desaparecimento.

Em Dança de enganos, Hatoum aprofunda a reflexão sobre memória, autoritarismo, laços familiares e identidade, ao mesmo tempo em que promove uma mudança significativa no foco narrativo, ampliando e tensionando as perspectivas apresentadas nos romances anteriores. Como já se disse,  A hora da espera e Pontos de fuga são narrados por Martim, em primeira pessoa, sob uma ótica masculina, pela experiência do filho que cresce à sombra da ausência paterna e da repressão política; do filho que, quando adolescente, não entende a ausência da mãe e sua inacessibilidade. Dança de enganos desloca a voz narrativa para essa mãe, personagem in absentia no volume anterior, mas que, agora, se presentifica e convive sofridamente com a ausência do filho e a impossibilidade de localizá-lo. Essa mudança reconfigura a compreensão dos acontecimentos, pois a memória materna revela aspectos silenciados ou distorcidos nos relatos anteriores, evidenciando que o passado é sempre fragmentário e dependente de quem o conta.

contexto da ditadura militar brasileira permanece central; a repressão política, o medo, a vigilância e o exílio continuam presentes, porém filtrados pela experiência feminina, que expõe vivências da espera, da solidão e da necessidade de sobrevivência emocional. A narrativa mostra como a violência do regime não atingiu apenas os militantes, mas também aqueles que, em situação comum, lidavam com a incerteza e o desgaste cotidiano.

As personagens ganham maior densidade psicológica dentro da fala de Lina, que deixa de ser apenas uma figura observada a distância e se torna proeminente, revelando o sentimento de rejeição da mãe, que não aceita suas escolhas; suas contradições, desejos frustrados, medos e estratégias de resistência. Martim, visto pelo olhar materno, surge como um sujeito ainda mais complexo e vulnerável, o que relativiza a imagem construída por ele mesmo nos livros anteriores. Essa sobreposição de vozes e memórias reforça a ideia de que nenhuma identidade é fixa ou completamente apreensível.

Martim continua distante do herói tradicional: não é um agente de transformação social direta, mas um indivíduo que tem dificuldade de agir diante da violência histórica e emocional. Em Dança de enganos, essa condição se intensifica, quando ele passa a ser reinterpretado por outro olhar, que mostra suas fragilidades e limitações. A própria Lina, por sua vez, pode ser vista como uma heroína silenciosa e igualmente problemática, cuja luta se dá no plano da resistência cotidiana e emocional: sente-se rejeitada pela mãe e castigada pelo primeiro marido, Rodolfo, que a distancia do filho sem que ela entenda por que. Acaba por deixar perecerem os sentimentos por Leonardo, o artista com quem passa a viver, exilada da família, após a separação.

O espaço, que nas obras anteriores é São Paulo e Brasília, se desloca para o interior de Minas Gerais, onde novas personagens surgem. No primeiro volume, Martim se muda com o pai, de São Paulo para Brasília, onde tem início sua formação pessoal e política. Brasília é um lugar de tensão entre os sonhos individuais e a realidade opressiva da ditadura. É lá que o protagonista vive experiências com o teatro, com relacionamentos afetivos e com a repressão política, e molda sua consciência.

Em Pontos de Fuga, ele sai de Brasília e volta a São Paulo, onde passa a morar numa república, como estudante da faculdade de arquitetura. Essa mudança assinala uma considerável mudança existencial. Ele, mais velho e engajado, confronta a repressão política e molda sua identidade entre o individual e o coletivo. A república estudantil, as ruas e os bairros paulistanos são espaços de sociabilidade e luta, em que as memórias de Brasília e o sumiço da mãe se confrontam; ele deixa seu lugar da infância e vai para um lugar de amadurecimento.

Dança de enganos tem seu enredo nas cidades de Ouro Preto, Campinas e Paris. A narrativa de Lina desloca o foco do espaço vivenciado diretamente pelo protagonista para o espaço interior da memória e do relato dela. Agora é Martim o personagem in assentia. Sua ausência está presente na maioria dos relatos da mãe, e é essa ausência que dá a dimensão de sua importância, pois são as inferências de suas ações passadas, decisões ou mesmo o mistério sobre o seu paradeiro, que impulsionam grande parte dos relatos da protagonista. 

Ouro Preto é o espaço onde Lina tenta recompor as peças de uma história fragmentada, por meio de álbuns, cartas, bilhetes e lembranças. É o berço da arte barroca, por isso também um cenário para a arte de Leonardo, Maciel Solho, Macena, para as oficinas e trabalhos sociais que realizam. Assim, o último volume estende os espaços físicos, sempre articulando memória, deslocamento, exílio e solidão. Deslocam-se geograficamente personagens e perspectivas, espaços geográficos e afetivos, entre mais enganos que certezas.

A metáfora do título – Dança de enganos – é uma síntese desses movimentos – físicos, psicológicos e históricos, como se preparasse o leitor para a sucessão de equívocos possíveis nas relações afetivas e familiares, nos constantes desencontros e nas ausências sempre muito doloridas. A palavra ‘dança’ sugere um movimento contínuo, alternado, com avanços e recuos, o que remete às aproximações e aos afastamentos na tentativa de  recuperar o passado. Até que ponto o passado recuperado é o que, de fato, foi? Haveria outras versões dos fatos contados? Tudo é tão incerto como a própria estrutura dos enredos não lineares, cujas narrativas são, por vezes, interrompidas, tomam desvios, depois são retomadas.

Sim, porque a memória pode falhar. Ou quem a retoma pode ter uma visão distorcida dos fatos idos, de acordo com os seus sentimentos. Porque os silêncios podem ter interpretações diversas para quem os recebe. Meias-verdades podem ser confundidas com verdades; ilusões podem ser criadas e enganos podem acontecer, como os autoenganos necessários à aceitação da realidade ou mesmo à sobrevivência emocional.

Dança de enganos traz, assim, uma espécie de arremate de histórias. Se A hora da espera enfatiza a formação do sujeito em meio à ausência; e Pontos de fuga acentua o deslocamento e a fragmentação provocados pelo exílio e pela busca, o último volume questiona a própria possibilidade de uma narrativa definitiva sobre o passado. A alternância de perspectivas expõe os “enganos” do título: as ilusões, os autoenganos e as versões incompletas da história familiar e política.

Após a descoberta da morte do irmão, Dácio, Lina fica sabendo sobre a atuação política dele, da companheira e do Leo; sabe também da morte da mãe e do poder que seu ex-marido exercia sobre ela. Como se desvelasse um novelo no qual nunca ‘quis’ mexer,  Lina se dá conta dos tantos equívocos, desencontros e desacertos.  É somente após o encontro com alguns amigos de Martim, da época de sua estada na república e da militância política, na casa da pianista alemã, Karin, em São Paulo, sobretudo após a conversa com o diretor Damiano Arcante, e a leitura dos manuscritos do filho, que ela entende o comportamento do ex-marido em relação à convivência dela e o filho: “Meu ex-marido percebeu o que sempre me recusei a admitir, como certas mães que, talvez inconscientemente, teimam em permanecer incrédulas diante de uma verdade”. Entende, a partir daí, o papel de Dinah, tão parecida com ela mesma, na vida de Martim. Ao compreender, deixa de ser "prisioneira da ausência" dele e perde a necessidade de se redimir. 

Desse modo, Hatoum constrói narrativas densas e sensíveis, que exploram o “lado mais sombrio” da experiência humana: o silêncio imposto, o trauma político, a falência das utopias, os laços familiares perturbadores e a solidão do indivíduo mesmo quando está acompanhado. Dança de enganos encerra a trilogia de forma madura e instigante, reafirmando um escritor atento às fissuras da memória e às marcas deixadas pela história autoritária do Brasil nos chamados anos de chumbo. O romance convoca, por fim, o leitor à reflexão sobre a complexidade das relações humanas e sobre o caráter múltiplo e instável da verdade.

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

QUEM MANDOU?

 

              

                Devia ser domingo e ela estava engordando. Mas fez a pergunta fatal e ele saiu sem dar resposta. Tão só, sem filhos, sem amor, ela ficou à espera, tão sem, que o doce arredondava todas as vontades. Ele ia voltar, ela pensou no começo, e o tempo foi passando.

             Esperança parou de voar por perto, e ela foi se acostumando a não esperar, a viver porque não poderia ser de outro jeito. Chorava mais quando ouvia “quanto sinto em dizer-te...” O mais importante não era o verdadeiro amor, era viver cada dia e mastigar o silêncio da casa, olhar a chave na porta no final do dia sem enganchar na outra.

Quem mandou pedir que ele decidisse? Quem? Ela se arrependeu, ligou pra ele, pior não ficaria. Ele quase passando com a outra na sua calçada. Ela quis fingir que não via porque, se visse, tinha que agir. Viu, agiu, se arrependeu. Não devia ter ouvido conversa de vizinho. Nenhum sabe a hora do travesseiro como é, a falta daquele pé roçando.

Ligou, disse pra ele buscar o resto da roupa, falou do gás vazando, do chuveiro esfriando. Que tinha se ele não saía mais com ela, não dormia lá? Pra que ouvir conversa de vizinho? Ligou, pediu que ele fosse dar a extrema-unção, era a hora final. Nem assim.

No dia seguinte, uma coroa de rosas com laços violeta. Ele nem soube que ela não morreu. Nem a viu mais gorda, só, tão sem como a deixara. Quem mandou pedir que ele decidisse? Devia ser domingo, quando a solidão tornou-se eterna e irremediável. Sem mais nem coroa nem laços violeta, ela parou de sofrer, redonda de tanto doce. Ele nem soube...

 

Aíla Sampaio

domingo, 22 de setembro de 2024

CICLO INEVITÁVEL

 



“Faz tempo, sim, que não te escrevo, ficaram velhas todas as notícias”, disse o poeta num soneto à mãe nos anos 40. A velocidade do tempo sempre nos atropelou. As notícias não caducavam rápido como hoje, mas já deixavam a sensação de obsoleto naquilo que ouvíamos e vivíamos. Hoje, então, nada podemos reter nas nossas mãos... Tudo é momento sugado pela fugacidade do instante.
    Amadurecer é acumular aprendizados com a idade e/ou as vivências. Mudamos, mas, em determinados contextos,  entendemos que “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”.  Quase tudo o que criticamos neles aparece em nós, como uma marca de nascença. Vamos nos transformando neles se não tivermos o cuidado de refletir sobre o que realmente vale a pena ser preservado, pois a herança comportamental não é uma imposição, pode ser aceita ou recusada de acordo com as nossas percepções dos modelos que tendemos a repetir.
    Os espelhos denunciam as marcas do tempo em nosso corpo, e os olhares, seguidos do pronome de tratamento áspero de senhor/senhora, nos dão o choque de uma realidade irreversível. Saímos do palco para dar lugar aos nossos filhos e netos, às gerações que se sucederam. É como se tivesse passado a nossa vez. Mas seguimos, num lugar à parte, como atores coadjuvantes na peça que escrevemos. Esse é um ciclo inevitável para quem não morreu cedo.

Aíla Sampaio
 
 
 
 

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

O Livro das ausências, de Hermínia Lima


  

O Livro das ausências, de Hermínia Lima, traz dezenas de poemas acerca de faltas que  habitam, ausências presentificadas pela saudade. Embora unificados na mesma temática, eles estão dispostos em blocos que se intitulam como: Ausências que cantam, Ausências que gritam, Ausências que pulsam, Ausências que saltam, Ausências que sangram, o que parece dimensioná-las, ou melhor, catalogá-las pela semântica dos verbos.

Neste “inventário de saudades”, como bem definiu o poeta Geraldo Jesuíno, prefaciador e responsável pelo belo projeto gráfico da obra, cada conjunto é composto por imagens que o eu lírico evoca. Nas ausências que cantam, ecoam os sons da infância e da juventude, que saltam das fotos e trazem à memória espaços e personagens que se perderam no tempo: a casa, o curral, a rede, o patriarca que dorme, o gato arisco, a cozinha e os sabores, as tias, os avós, os livros da mãe, a mestra, o universo gustativo e olfativo das frutas – manga, goiaba, cana, melancia – e as vivências da menina que imigra do Ceará para o Maranhão, guardando na memória sensações e lembranças indeléveis.

Nas ausências que gritam, o telurismo da menina dá lugar à urbanidade da mulher que se apaixona e experimenta a perda e a espera, a saudade feito faca e lâmina, figuras recorrentes na poética da autora, que sugerem tanto a profundidade da dor pela iminência do corte, como se afiguram como um símbolo fálico, de agressão e masculinidade, evocando as pulsões que estão metaforizadas nos poemas. Em outras obras suas, o erotismo é flagrante, mas, nesta, aparece velado por metáforas como a do jardineiro (p.74), que poda e rega as rosas, ungindo a terra e pondo sol sobre as flores. NAs Ausências que pulsam, o corpo se transveste de guitarra, e o prazer é a música que os dedos do amado arrancam de suas cordas. Os poemas, de fato, parecem impulsionados pela saudade cortante do afago corpóreo, pelo entrelaçamento que gesta música, pelo rito do amor, pelas pétalas que querem se abrir. Anuncia-se “um tempo de casulo” (p.127), de recolhimento, de espera, em que só as ausências sussurram e cantam. “Só a penumbra guia passos incertos” (p.138).

Em  Ausências que saltam e Ausências que sangram, os olhos viram cascatas, espinhos espetam a pele, o corte se aprofunda, “o vinho fala mais tinto” (p.146), as estrelas parecem mudas e o verde perde o viço. A saudade se estende à perda de amigos e expectativas, mas há semente e adubo para os versos, bem como rimas e metáforas que o eu lírico promete usar para sobreviver aos hiatos criados pela vida.

Embora sejam as ausências o leitmotiv de todos os poemas, e a lâmina da saudade aprofunde os cortes, não há qualquer marca de desespero ou desengano nos versos de Hermínia. O sujeito poético celebra, louva, lamenta, recorda, e ancora nas palavras a dor de cada uma; vê o amarelo das gérberas tingir a tarde e se prepara para saudar a lua, enquanto planta amoras e, mesmo na incerteza, espera o tempo da colheita.

Aíla Sampaio

O novo romance de Celma Prata


     Bodum é o segundo romance de Celma Prata, cuja narrativa autodiegética traz o relato de Giacinta (Gia), uma professora universitária nordestina, acerca de sua amizade com Amébia (Bia), também nordestina, ambas descendentes de povos originários. Conheceram-se por acaso – “Ao primeiro olhar, nossa principal semelhança era física: pequenas, cheinhas, pardacentas, cabelos pretos lisos, duas coboclinhas bonitinhas meio fora do lugar”. Ambas são órfãs, vivem anônimas e sozinhas na cidade grande até se perderem uma da outra. Mais: ambas têm nomes estranhos em decorrência de um erro do tabelião do cartório, que, em vez de Amélia e Jacinta, registrou-as como Amébia e Giacinta, prática muito comum no sertão nordestino, por conta da pouca escolaridade dos escribas.

    Gia volta à caatinga onde Bia nasceu para tentar descobrir o seu paradeiro, mas apenas consegue ouvir relatos sobre a infância dela, que foi criada pela tia, a “bruxa-madrinha” mal humorada e rabugenta, com quem se mudou de Recife para São Paulo. A narrativa de Bodum é a da busca de Gia pela amiga, sua viagem pelo interior, que alarga seus olhos para a miséria da região, tervigersando por temas nevrálgicos como a xenofobia sofrida pelo nordestino no sudeste e os crimes contra os povos indígenas.

    Ao procurar pela amiga, Gia procura também por ela mesma ao retornar igualmente ao seu sertão e entender que ele continua sem redenção e que ela não pertence mais àquela realidade. Resta-lhe monologar consigo mesma, dar aulas de língua portuguesa na universidade e ler romances como “Genetílides”, o livro que a acompanha por toda a viagem, cujo enredo a faz intuir que a amiga está morta, o que, afinal, não se confirma.

    Além da trama costurada pela protagonista, seduzem o leitor algumas reflexões metalinguísticas acerca da semântica da palavra caatinga – que a personagem prefere pronunciar catinga, - traçando um paralelo semântico com a palavra que dá título à obra – bodum – que significa ‘odor almiscarado, cheiro nada agradável’. Muito sensorial, Gia diz carregar o “cheiro de pneu queimado” nas narinas, como a dizer carregar consigo a abundância de um passado desafortunado: a orfandade, a pobreza sertaneja, a perda de um olho, o estupro e suas consequências, e a solidão.

    Embora marcada por tantos infortúnios, Bia é uma vencedora, pois saiu sozinha de sua terra, enfrentou a discriminação, estudou e se fez professora universitária. É o conhecimento a sua arma contra a ignorância e o seu bastão na luta pelo “culto aos ancestrais e às crenças múltiplas que beneficiem a humanidade”, despertando a consciência dos seus alunos para os problemas brasileiros e estimulando mudanças. Ela parece gritar que o caminho para vencer a desigualdade social é pela educação. O discurso de Gia é o da escritora, que não se omite aos problemas sociais do seu país e mantém hasteada sua bandeira de luta. Parabéns, Celma Prata, pela potência da sua fala na voz de sua protagonista.

 

Aíla Sampaio

sábado, 24 de agosto de 2024

...e por falares e cantares...: uma viagem ao centro do mundo!


        O livro ...e por falares e cantares..., de Pedro Gurjão, é um volumoso compêndio de vivências, experiências, papos-cabeça, anedotas, compilados, reflexões, referências, enfim, textos diversos, muitos já publicados e debatidos nas redes sociais, inclusive com comentários interacionais de alguns internautas. O livro é constituído por um manancial temático muito vário, que se divide em 13 séries em vez de capítulos, iniciadas após a homenagem aos 100 anos do Millôr, com quem o autor dividiu momentos de partilha pessoal e cultural. Textos em prosa se alternam com textos em versos, numa miscelânea de crônicas, ensaios, poemas e canções, com incursões pela mitologia grega, pelas artes plásticas, pelo cinema, pelo jornalismo, pela publicidade e pela literatura, mostrando uma versatilidade incrível para mudar de assunto sem perder o ritmo, ora usando a língua portuguesa de modo criativo, ora transgredindo-a conscientemente numa atitude de rebeldia ante as formalidades.

              Sua vasta cultura se apresenta nas referências constantes a pintores, filósofos, pensadores, cantores, compositores, romancistas e poetas brasileiros e estrangeiros sobretudo dos séculos XIX e XX. Anedotas e causos ficcionais misturam-se a relatos, muitas vezes jocosos, de acontecimentos. Pedro é cronista e também é poeta e trovador, e seu conhecimento de mundo e intelectual é tão amplo que é impossível abarcá-lo numa simples resenha. É preciso abrir o seu livro e passear pelas páginas com calma, como quem visita uma enciclopédia animada. Aviso: muito do que ele fala não está acessível no Google, então, o meu conselho é quem quer agregar conhecimento mergulhar na leitura.

        Junte-se a essa volumosa bagagem o seu poder de observação do mundo, de captar a essência do que vê, do que lê e escuta, sua capacidade de articular opiniões e entregar-se ao memorialismo estupendo dos seres graves atravessados de imensa sensibilidade. Como diz Oswaldo Euclides de Araújo, na apresentação da obra, ele "abre um baú de ideias e memórias com seus insigts geniais, para repartir, e assim multiplicar, os tesouros que carrega em sua mente preciosa e em seu coração generoso". De fato, ele compartilha detalhes guardados de leituras feitas, de cenas vividas, de pessoas que fizeram parte da sua história, relacionando-as e criando intertextos inusitados, que não sei se todos os leitores estarão preparados para perceber. Talvez ele tenha escrito para ele mesmo, para não esquecer as tantas informações, que permanecerão para sempre ao seu alcance por meio do registro livresco.

Depois da série 1, que tem como leitmotiv a mulher, na série 2, seus causos e anedotas resgatam personagens reais, e as histórias verídicas são permeadas também de personagens ficcionais que dialogam com eles. São muitos enredos a ressuscitar pessoas e acontecimentos; depois a remontar a Fortaleza Antiga (série 2) e suas figuras e espaços proeminentes, trajetórias políticas, fatos curiosos, com o registro do “Memorial Afetivo de Fortaleza, que o autor criou nas redes sociais há 4 anos. São postagens transcritas e comentadas sobre assuntos diversificados, como carros, filmes, misses, perfumarias etc etc etc.

A série 4 evoca a poesia matuta e as cantorias, o folclore, dogmas e crenças. A 5 apresenta o desafio para glosar o mote “Pois é no frigir dos ovos que a manteiga vai chiar”, que é plenamente aceito e realizado, seguido de um compilado de pequenos artigos e versos anteriormente publicados no Facebook. Na sequência, série 6, há provocações filosóficas sobre ateísmo e assuntos afins, com o aparato das leituras nietzscheanas e bíblicas feitas pelo autor. Os atravessamentos dos textos literários e musicais são perenes, pois é arguta a sua percepção das intertextualidades.

A série 7 tergiversa pelo poder e o dinheiro, pela política e pelas questões nevrálgicas da sociedade, com passeio literário que vai de trovas próprias a referências contextualizadas de Erasmo de Rotterdam a Lima Barreto, passando pelo Apóstolo Paulo e pelo compositor Luiz Melodia. Nesse ritmo, seguem-se as séries seguintes, com reflexões, citações, trovas e muito pensamento filosófico acerca da vida, ironias ao 'discreto charme da burguesia', visitando Sartre, Bauman, Patativa e até a física quântica. Um dos pontos altos é a série 12, com ensaios acerca da mitologia grego romana, seus deuses e semideuses, suas histórias de venturas e desventuras, castigos. Finaliza-se com a série 13, que traz textos acerca dos cinquenta anos da Feira da Comunicação, numa abordagem mais formal.

A obra é um desafio ao leitor de pouca leitura, é quase fazer uma viagem ao centro do mundo, mas garanto que seu estilo é leve, prosaico, conduz a um clima de conversa, que prende e envolve, como se os relatos estivessem sendo feitos na mesa de um bar, um café, ou olhando o mar. A experiência do autor como jornalista lega aos textos a simplicidade sofisticada dos que sabem ser concisos mantendo as pegadas poéticas profundas. Acredito também que o desafio da leitura possa ser vencido pelo estímulo à curiosidade e à pesquisa. Se nas redes sociais os internautas interagiram, o livro será a continuação desse rito e há a chance de um banho de cultura em quem anda desprovido dela.

Chamo ainda a atenção para o título, colocado entre reticências, e iniciado com letra minúscula, como a dizer que aquele conteúdo é apenas um recorte do que o autor tem a falar; muito há antes e, certamente, muito ainda virá. Além dessa escolha estética, a semântica nos remete e um sarau, que envolve falas e cantos, sedimentando o tom poético do discurso que perpassa todo o livro. Parabéns, Pedro Gurjão. Está justificado o meu voto para senador em você no ano de 1986.


Aíla Sampaio



domingo, 11 de agosto de 2024

O tempo e suas artimanhas

Quando somos muito jovens queremos que o tempo passe rápido para termos a idade da independência e das realizações. E o tempo se arrasta, faz chacota com a nossa cara. Depois ele se esconde e acreditamos que esteja invisível enquanto nos gastamos na luta para atingir os nossos objetivos, as buscas que parecem não cessar nunca, as ambições que criamos. De repente ele se põe na nossa frente, avisando que nos atropelou, que não se distraiu por um só minuto da nossa caminhada. E passamos a correr contra ele como quem nada contra a correnteza, até acordarmos e percebermos que o que temos pela frente é bem menos do que o que ficou para trás.

Quem desperta para o autoconhecimento e a espiritualidade, para as ancestralidades e os carmas, entende que  a vida é bate-e-volta, uma escola cheia de provas, e que sempre chega a hora da prestação de contas, embora, ainda assim, não esteja pronto para tão complicada contabilidade. Os que apenas foram vivendo, focados nas conquistas materiais e no poder, não compreendem os revides, as lições enviadas como chances de aprendizado. Ninguém escapa do sofrimento; a diferença é que há pessoas que aprendem com ele, despertando para a mensagem que trazem; e há pessoas que o atravessam revoltadas, vendo-o como uma circunstância da vida somente. Essa compreensão nada tem a ver com religiões, mas com o conhecimento das leis espirituais e a busca do propósito, que é pessoal e intransferível.

E nos vem, na maturidade, a pergunta inevitável: o que fizemos da nossa vida?  Passado o tempo do plantio, é chegada a hora da colheita. Nada acontece por acaso. Todas as escolhas implicam consequências e, ao fazê-las, devemos estar preparados para pagar o preço, pois somos os responsáveis pelas nossas ações. Não existem fórmulas de bem-viver. Existem opções conscientes de, durante o nosso trajeto, seguir as leis que regem a harmonia do universo Os resultados positivos que buscamos não estão na acumulação de bens nem na ostentação de poder. Sem o pensamento sistêmico e o autoconhecimento, a riqueza material só escraviza, não garante nenhum grão de felicidade.

Essas reflexões estão comigo há décadas. Faz tempo que procuro compreender o propósito de tantos revezes em minha vida, desde a perda do meu pai, quando eu era criança, da situação financeira que tínhamos, a perda de amores, de oportunidades importantes... Desde que fiquei atenta a todos esses acontecimentos, aprendi a olhar mais para a metade cheia do copo e a saciar-me com ela. Cresci em todos os sentidos, entendendo algumas perdas como ganhos a longo prazo. E o tempo me deu a oportunidade de ver que tudo foi exatamente como deveria ter sido. Todos os que, de algum modo, "atravancaram" o meu caminho, foram "pisoteados" pela vida ao longo da jornada, sem que eu jamais tenha desejado isso. Eles passaram; eu aprendi a voar e me fiz passarinho, com a sensação de ter perdido, lá atrás, no jogo do bicho, para ganhar, mais às frente, duas vezes na loteria acumulada!


Aíla Sampaio




Dança de enganos e as fissuras da memória

  Aíla Sampaio (Escritora e Profa. Dra. da Seduc e da Unifor)     A trilogia  O Lado Mais Sombrio , de Milton Hatoum, se completa agora com ...