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Mostrando postagens de Janeiro, 2012

Provisórios

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Tudo, absolutamente tudo, é provisório. Mas ninguém, absolutamente ninguém, aceita isso. Vivemos como se fôssemos eternos e tudo fosse durar para sempre: as pessoas que amamos, as paixões e até as dores. Queremos ser felizes, não experimentar sofrimentos, não ser contrariados nunca. Queremos a compreensão do outro mas nem sempre estamos aptos a compreender o outro. Às vezes, nem a ver o outro. Queremos sempre falar, mas não sabemos ouvir; queremos amores eternos, fidelidade, ...mas machucamos quem amamos com silêncios e omissões quando se espera uma palavra e/ou um gesto. Temos um imenso medo de arriscar nosso conforto e fazer novos voos, mas esperamos novidades, mudanças. Ainda não aprendemos que criar asas e ousar a imensidão é pra quem tem sonhos e acredita neles; pra quem não só pensa que pode cair se tentar. Sejamos sinceros: precisamos ser menos pretenciosos e ter mais humildade para aprender o amor... precisamos desviciar o olhar e não esperar que os outros façam o que só nós p…

NÃO!

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A maturidade só desconcerta os espelhos, quando refletem algum fio descolorido no cabelo, algum vinco mal projetado no rosto. Quando se faz a paz com eles, deixam de ser algozes... passam a ser apenas testemunhas uma história escrita pelos anos que tivemos o privilégio de viver. A maior benesse dessa fase é a capacidade de dizer NÃO. Por educação, aceitamos muitas vezes o que não nos convém...; por amor (ou o que se pensa ser amor), nos submetemos ao que nos desagrada... tudo em nome de uma harmonia que os anos, felizmente, desmascaram: era falsa, sustentada apenas pelos nossos sacrifícios. Na maturidade, descobrimos o quanto nos violentamos para agradar aos outros, que nem sempre necessitam desse sacrifício, na maioria das vezes nem valorizam. Descobrimos que éramos, na verdade, pretensiosos ao nos considerar imprescindíveis à nossa profissão, ao nosso parceiro, aos nossos filhos e amigos. Todos sobrevivem sem a nossa presença... nós é que não sobreviveremos se continuarmos a enxerga…

Céu plúmbeo

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Ventanias batiam janelas e portas dentro de mim, avisando de chuva lá fora e fazendo um desenho plúmbeo no céu...
Era meu coração morrendo um pouco cada vez que ias emboras e eu não conseguia bater a porta.
Aíla Sampaio

"Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo"

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Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo. Assim, Saramago contemporiza a prudência com o ritmo acelerado que impomos à vida. A impetuosidade é uma característica do comportamento adolescente, quando tudo é urgente, nada pode esperar. Sem muitas vezes pensar nas consequências, sem na maioria das vezes certificar-se de que se está sendo justo, tomam-se decisões que, quase sempre, geram ônus, em alguns casos, impagáveis. Quando a maturidade sereniza o pensamento, quando ela não é motivo de angústia pela não-aceitação das mudanças inevitáveis, podem-se frear os ímpetos, diminuir a velocidade com que se tomam decisões, maturando-as na experiência, na parada para avaliar os acontecimentos que geraram as situações conflituosas. O equilíbrio está no respeito ao tempo de cada coisa: se colhermos o fruto verde, perderemos seu verdadeiro sabor; se não o colhemos, ele apodrece e, da mesma forma, ficaremos com o gostinho do que poderia ter sido. É preciso sabedoria para discernir o tempo de pla…

Como os leitores interpretam os textos que leem?

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Escrevo há muitos anos e observo que, assim como na vida as pessoas julgam as atitudes das outras, muitas vezes sem conhecê-las, inspiradas, certamente, em seu próprio modelo, na leitura do texto literário também ocorrem distorções propiciadas pelo mesmo comportamento. Essas minhas reflexões me levaram de volta à ‘Estética da Recepção’, teoria que considera a Literatura enquanto produção, recepção e comunicação, ou seja, uma relação interativa entre autor, obra e leitor.

Claro que não me interessa aqui historiar a teoria literária, mas apenas embasar o meu pensamento sobre a forma como as pessoas recebem o texto que leem. Gostar e não-gostar são reações muito subjetivas. O leitor comum, que não tem pretensões acadêmicas, busca apenas prazer no que lê, quer informação, deleite. Normalmente ele se identifica com textos românticos e existenciais, vê-se em cada palavra ou compreende, por meio dela, o que sentia, mas não sabia (ou conseguia) expressar.


Há, entretanto, uma diversidade de rece…

Carta ao tempo

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A gente esquece o nome quem têm algumas dores. Sim, porque algumas delas têm nome e endereço fixo, mas não têm remédio. Daí as cartas que escrevo ao tempo, pedindo que passe passe passe, de mãos dadas com o vento, e leve as histórias mal contadas daquele amor que gostava dessa rima pobre. Que não fique sequer um pé de esperança aonde não pode brotar flor. Que seque toda seiva que se derrame em vão e sobreviva apenas a poesia soberba da vida tatuando em cada poro o cheiro desse amor nascente. Esse tem asas que não são descartáveis e só sabe rimar com felicidade. Sua tristeza é sincera, sua alegria não é postiça. Seu esconderijo, por enquanto, são as minhas palavras, mas, em breve, será o meu corpo... os sapatos já saíram da caixa. Falta muito pouco para saírem andando por aí.

Aíla Sampaio

Sem rasuras

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Desejos realizados e desrealizados. Silêncios tumultuados. Vazios repletos. Ser sem a opção de não-ser. O que cansa é esse vai-e-vem de vontades e desvontades, a falta de medida para os sentimentos; é anoitecer sem ter amanhecido... Há de haver um momento em que nada importe ou doa; em que não se sinta nem se seja, em que apenas se escute os passos delicados do tempo, sem rasuras na pele ou na alma.

Aíla Sampaio

É ainda tão silenciosa a minha vontade de ti, que prefiro fazer de conta que nem escuto...

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Aíla Sampaio

O fim da primavera

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Lembrarás, mesmo que não passes nunca mais em frente ao jardim, que já fui uma flor em tuas mãos, e que esmigalhaste as pétalas dela sem motivo. Suportei calada, cuidando para que meus espinhos não te furassem, mas jurei não morrer, só pra te ver um dia arrepender-se de ter matado para sempre a primavera...

Aíla Sampaio

Pesava demais a armadura em que te escondias... não pude mais carregá-la. Até suportaria as tuas fraquezas, mas jamais o disfarce grosseiro delas.

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Aíla Sampaio

Mudanças

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Não acredito em revolução sem sangue nem em parto sem dor. Toda mudança desestabiliza, põe o coração em desordem, a alma em alvoroço... não fica pedra sobre pedra. O preço de toda transformação é alto, mas vale a pena pagá-lo. Ele vale cada centavo de vida que se paga com lágrimas e, às vezes, com solidão imensa. Só os medrosos permanecem lagartas quando poderiam virar borboletas; preferem a inércia da estabilidade à ebulição das ideias e emoções. Trocar a pele da alma dói, mudar o coração de forma dilacera, mas só passando por essa metamorfose se revitaliza a essência e se conquista a posse da vida... Do contrário, não se vive, apenas se está vivo, o que é muito diferente.


Aíla Sampaio