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Mostrando postagens de Fevereiro, 2011

Retrato antigo

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Não tenho mais o teu rosto fixo na memória como um retrato na moldura. Acho que despencou parede abaixo, estraçalhou-se no assoalho manchado dos desejos não-satisfeitos. Restou o papel encardido de esperas com a irreconhecível fisionomia de um homem antigo cujos olhos não mais se reconhecem.
São assim as terras por que pisamos inseguros e das quais voltamos de mãos vazias: terra apenas, sem flores nem água; é assim o rosto que já foi amado quando entra no território do esquecimento: uma fisionomia borrada apenas, mais nada.


Como na Carta de Paulo

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Ela conseguiu sobreviver àquele amor que até ontem mudava a cor do seu rosto quando alguém pronunciava o nome. Já havia lido os Coríntios e se identificado: tudo sofreu, em tudo acreditou, tudo suportou, tudo esperou até que, de tanto sofrer, acreditar, suportar e esperar, descobriu que não bastava falar a língua dos homens e dos anjos, era preciso que o homem amado não pensasse como um menino, que acabasse com as coisas de menino quando já não era um menino. Assim, machucou, machucou-se... então, sem vaidade, sem vangloriar-se, sem ensoberbar-se, sem portar-se inconvenientemente, sem buscar os seus próprios interesses, sem irritar-se ou não suspeitar mal, desistiu do amado, mas o amor... o amor ficou, como profetizou a Carta, porque o amor jamais acaba; aniquila profecias, cessa as línguas, faz desaparecer a ciência, mas não acaba. Assim foi, assim será. (Aíla Sampaio)

Maré cheia

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Quando sinto teu cheiro de mar reberverando no vento, sei que me chamas a mergulhos em plena maré cheia. Fecho a janela e guardo-me no mais tumultuado silêncio, prevendo sargaços nos desvãos da alma
e tempestades corpo adentro.

Sei de cor os adágios do teu canto,
os aromas das algas que não se volatizam no tempo, e os tantos segredos guardados, nos lençóis de areia.
Escuto teu chamado e ensurdeço sob o corolário de gritos que tecem teias de abraços e medos. Só assim me livro do contágio
dos teus beijos
e não ouço, mais uma vez,
o canto das sereias; só assim não morro, outra vez,
vítima de outros naufrágios,
refém de irrealizáveis desejos.

Agora

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Chega de pretéritos imperfeitos ou de futuros do subjuntivo.
Agora só conjugo o verbo amar no presente do indicativo!

FADO

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Fugi de todos os destinos mas eles ainda atravessam o meu caminho como fantasmas que se revezam para assombrar-me. De nada adianta dormir; a lida contra o vento se estampa em meu rosto como palavras num pergaminho e é irreversível a marca das tempestades.

Ninguém devora a carne do tempo impunemente.


Das braçadas contra a correnteza, restou o cansaço, ficou a incerteza do porto ancorada em presenças ausentes, cidades perdidas no mapa da memória. Fiz de nuvens o meu castelo alado. e sobre escombros escrevi minha história. De nada adiantou seguir os desvios e quebrar as correntes: Ninguém consegue fugir ao fado.

Tela

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O tempo costura a vida com pontos de cruz,
fazendo desenhos multicores no tecido dos dias.
Na tela em que meu destino foi bordado,
não há manchas de dedos nem frouxos alinhavos

desfazendo a harmonia.
Nasci, certamente, das bordadeiras de sonhos
que tecem lenços azuis todas as manhãs
para que a realidade, com seu duro fardo,
não pesponte escuridão onde o traço é de luz.

Aíla Sampaio

Mudando o enredo

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Não quero metades ou frações. Nasci para inteiros, para desmedidas; não para a vida inteira, mas para o instante que pode esvair-se em segundos ou durar para sempre.
Foi assim desde o início: a escolha pelo possível, a decisão pelo viável, a inglória sensação de uma alma resignada que, por detrás das cortinas, continuava a desejar o impossível .
Aprendi a sair do eixo e a brigar com a impossibilidade do prefixo por isso:  para mudar o enredo da minha história e seu desfecho.

Dono do tempo

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Quando chegares, deita tua cabeça em meu regaço e colhe a dia, como se fosses o dono do tempo. É tudo teu: o quintal ensombrado, a rede estendida na varanda e todas as minhas horas. São teus também os meus olhos de criança, que passeiam pela casa e pelo teu corpo, como se andassem pelas ruas de Veneza.
Entra e come do meu pão e bebe do meu vinho,
sem desfazer as malas. Rega a flor que plantaste e me diz umas poucas palavras. O muro coberto de hera, a lua na calçada e as libélulas  escutarão teus passos
antes da madrugada.


Eu, não. A espera me ensinou o silêncio,
mas não abalou a certeza da tua volta
(a qualquer hora). Tu podes ir. Só te peço que não digas nada. Não olhes para trás nem batas a porta ao sair.

EU E "OS COMIGOS DE MIM"

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Eu não gosto de silêncios demorados nem de promessas. Nasci assim, com seriedade para as coisas que mexem com sentimento. O silêncio deve durar o tempo necessário para conter as impetuosidades; depois tem que haver diálogo. Toda situação indefinida me desequilibra. A minha leveza está nesse fio tênue que me separa dos que são precipitados demais, dos que adiam demais, ou dos inconsequentes, dos que, para 'sair sempre bem na fita', fazem propaganda enganosa de si mesmo. A vida não deve ser levada muito a sério, dizem... concordo em parte.


Não sei viver em corda bamba, sou da terra, gosto de sentir os pés firmes. Comodista, talvez... a idade pede suas benesses, fazer o quê? Voo, sim, e até esqueço de aterrisar, mas não o faria se não houvesse a possibilidade de voltar ao chão. Posso correr o risco de me espatifar, sem problema, mas quero a possibilidade do chão sob os meus pezinhos 36. Ultrapassei a fase (se a tive) de me jogar no escuro. Aventura tem hora...brincadeira também...…

Amor

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Insensato, mas, ato contínuo, o amor se fez ideia desiderato. Era amor, tinha destino, tinha sentido.

Ventos e tempestades o vergaram; ergueu-se continuou a despeito do sol, das chuvas. Exposto ao calor ou ao frio resistiu; era amor e tinha destino tinha sentido.
Perdeu-se numa curva, rua sem saída mar sem bússola. De repente, caiu numa emboscada quis resistir mas não encontrou sentido não havia mais caminho.
Exaurido, surdo, cego, só e taciturno morreu à míngua ninguém soube ninguém viu ninguém leu o nome tatuado em sua língua como um grito mudo.

O que ficou

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O que ficou de ti não foi o calor dos abraços nem as lembranças guardadas entre livros e fotografias não foi o laço feito de afinidades e cansaços nem as canções com que me ninavas quando eu dormia.

As marcas das tuas mãos desapareceram do meu corpo e o gosto do teu beijo em minha boca se desfez. Não ficou a intimidade pouco a pouco construída sequer um sentimento para trazer de volta minha insensatez.

O que ficou de ti foi a tua indiferença à minha mão estendida; foram as palavras de descaso ditas à revelia; a delicadeza esquecida, e a ternura desperdiçada em inesperada ironia.

Para te esquecer

Para te esquecer é preciso fugir ao destino desdizer o já dito apagar o que estava escrito; é preciso aprender o silêncio da cumeeira das casas saber viver sem abrigo e aprender a voar sem asas.

Para te esquecer era preciso nascer Zeus e enganar o Tempo ou até mesmo nem ter nascido.
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‎Fevereiro chegou devagarinho, com seus dias poucos, com seu jeito de segundo, aquele que pode realizar o que o primeiro não fez...